A NOVA CASA: CASTELO MERAK

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Acordei quando estávamos adentrando a vila nas cercanias do castelo de meu avô. Antes da vila ficavam os campos de agricultura e os pastos verdejantes onde os animais do castelo eram criados junto às rés dos servos. O castelo de vovô era sustentado como o de qualquer outro nobre: com impostos cobrados dos trabalhadores. Em troca ele oferecia proteção e terras para cultivar. Todas as terras naquela porção de chão da Transilvânia, eram de Barakj Merak.

Não muito distante do castelo Merak, na parte detrás, começava um bosque que emendava na grande, densa e extensa floresta dos Montes Carpaţi. Na frente do castelo, começando pelo átrio externo, e, à direita para quem chegava, era possível ver o jardim, com plantas da flora local ou advindas de terras longínquas. Algumas eram tão antigas que possuíam grossos e consistentes troncos, como um coqueiro que foi cultivado com todo esmero para que nunca parasse de dar frutos. À esquerda do castelo, escondida por uma sebe, ficava a horta de muitos canteiros. O sistema de irrigação desviava a água de um riacho próximo até chegar ali. Para além da horta, perto da floresta, ficava o chiqueiro, com muitos porcos. O chiqueiro recebia a água que passava pela horta.

Adentramos pelo caminho de pedras enquanto conhecíamos a vila, cheia de casas do mesmo material e/ou de troncos de madeira. O comboio passou pelo grandioso portal dos portões de madeira quase crua, larga e reforçada com aço. Cada lado do portão precisava de no mínimo três pessoas empurrando para que fosse aberto, ou de meu avô e sua força sobrenatural.

Ao entrar para o átrio, logo à esquerda era possível avistar os estábulos, encostados na muralha de pedra de quatro metros de largura.

Meu pai soltou um assovio admirado quando descemos da carruagem. Ele me segurava nos braços, com as costas encostadas em seu peito, então tive a mesma visão que ele: o gigantesco e magnânimo castelo de pedras. Uma obra arquitetônica quase megalomaníaca. Tinha quatro torres altas, de onde era possível vigiar terras realmente distantes. As torres ficavam nas exatas direções norte, sul, leste e oeste. A porta de entrada do castelo ficava no sudeste, entre as torres leste e sul. A porta de saída, que ficava na cozinha e dava acesso à parte de trás, ficava a noroeste, entre as torres oeste e norte.

Na base da torre leste havia uma capela pequena, apenas para a família e o povo local, muito bonita e bem feita. Tinha o altar, os bancos e demais detalhes logrados de madeira escura, com adornos preciosos que fizeram algumas pessoas perderem os dedos ao tentarem furtar. O preço da cobiça.

As janelas tinham vitrais trabalhados com histórias bíblicas clássicas como A Torre de Babel, passagens sobre a Babilônia ou Sodoma e Gomorra. Trabalhos artísticos impressionantes e detalhados, com algumas frases gravadas em latim. Um dos vitrais era o brasão da família, com três espadas montantes dispostas de maneira vertical e os traços de um coração humano em chamas bem na frente das espadas. Aquela era uma boa direção para a capela, pois o sol banhava os vitrais durante a manhã, que é quando as pessoas mais precisam de esperança. Em muitas de minhas manhãs passei tempo contemplando as sombras coloridas que banhavam o espaço penumbroso como uma pintura. O coração em chamas parecia vivo quando o sol tinha mais força. Também era bom ver o altar, onde, em lugar de um cristo crucificado, preferiram colocar a imagem do homem pregando a palavra. Ele sorria. O cristo carismático da família Merak era desaprovado por aqueles que pensavam que a fé deveria ocorrer pelo medo ou pelo deslumbre.

Os vilões, pessoas que moravam nas vilas, com certa frequência realizavam seus ritos religiosos ali. Batizados, casamentos ou missas. Havia um capelão que morava na vila e atendia na capela ou em sua casa. Seu nome era Jis.

Abaixo da capela, na torre leste, ficava o sepulcro da família Merak, com os corpos de nossos antepassados. Era ali que estava o corpo de minha avó Lwana. Essa parte do castelo tinha entrada por uma portinhola atrás do altar da capela, e para chegar aos restos mortais ainda era preciso passar por duas portas trancadas. Uma segurança contra gatunos que gostavam de profanar corpos.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora