NÉVOA

40 14 186
                                        

Tenho a vívida impressão de que sou um atrativo para tresloucados. Eu estava com pena quando vi aquele jovem pisado no salão da nossa morada, sangrando, com a expressão dolorida e torta como a de um brinquedo velho e quebrado. Porém, não podia negar também que ele era atraente, principalmente me olhando de baixo, daquela maneira. Toda a cena que se seguiu foi de tensão absoluta e eu não conseguia tirar ela da cabeça. As memórias se repetiam sem permissão porque Basiliu deixou uma forte impressão em mim.

Reconhecendo nele um par, admirador da Arte, tratei de levar sua recepção com maior capricho. Eu queria estreitar laços e entender o que mais ele sabia sobre temas de interesse em comum. Sozinha, no meu quarto, antes do jantar, fechei meus olhos e visualizei a cena cativante de Basiliu escutando uma melodia que eu tocava, com os olhos cerrados. Imerso.

Girei pelo quarto abraçada com um travesseiro, empolgada. Arremessei o travesseiro sobre o lençol bagunçado e ri, pensando que ele quase tinha sido morto pelos guardas. Eles estavam de bom humor para levá-lo vivo. Depois, ele quase pegou meu braço em um impulso. Eu o teria empurrado para longe, para evitar que meu pai matasse ele ali mesmo.

Ainda não podia acreditar que ele queria mesmo que eu pintasse um retrato de sua pessoa. Era uma grande responsabilidade.

Arrancando-me dos devaneios bem embasados, alguém bateu na porta. Era Solis. Ela entrou empolgada, com um embrulho em mãos. Era uma caixa forrada em tecido vermelho com uma fita branca de laço mal feito.

— O que é isso? — Perguntei enquanto percebia Valenius olhando por cima do ombro dela, curioso.

Ela fechou a porta.

— É do senhor Darius. Veio com um cartão. Se quer saber, está torto porque seu pai inspecionou. Ele que fez esse laço torto porque o original era muito bonito. — Contou aborrecida.

Eu ri pelo nariz, achando graça. Peguei a caixa vendo que era leve.

— Você não está chateada, Ana? Afinal ele violou a sua privacidade. — Inquiriu-me, olhando muito de perto. Depois voltando os olhos para o conteúdo. Meu pai não era o único curioso.

— Estou perfeitamente bem, Solis. O que tenho para esconder? Nem mesmo existe um laço entre mim e esse que mandou o presente. — Desembrulhei o que tinha dentro.

— Que beleza! — Solis pareceu encantada.

— E é mesmo. — Admirei o broche de pérolas. Havia pérolas redondas no centro e pérolas barrocas nas bordas, formando uma flor. Tudo incrustado em ouro.

— Onde está a missiva? — Não estava dentro e nem fora da caixa.

Solis tirou do bolso do vestido um envelope feito de papel grosso com meu nome escrito do lado de fora. Tirei o papel de dentro do envelope e li, estava registrada uma frase:

"Para firmar a amizade."

Darius

— Que gentileza da parte dele. Agora não sei como proceder. — Suspirei chateada. A vida era muito simples quando o meu pai me escondia do mundo. Talvez se eu pedisse com jeito...

— Pergunte para a senhorita Elspeth. Ela certamente terá uma resposta. Hoje fiz muitas perguntas diferentes e ela respondeu todas. — Afirmou com um largo sorriso no rosto.

— Você ama as lições com ela. Não é? — Coloquei a caixa sobre a mesa onde estava o herbário.

— Não posso negar, Ana. Ela transmite paz. Eu ouço a voz dela como um encanto sublime e tudo o que ela diz fica gravado em mim. Não existe esforço. — Explicou com os olhos brilhando. Era bom ver que, para Solis, Pricila era o oposto de Gueorgiana.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora