IMENSIDÃO

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Depois de viajar por muitos dias, em um dos caminhos mais difíceis e ermos que qualquer criatura viva poderia pisar, machucando as minhas patas de tanto correr sobre farpas, espinhos, pedregulhos e limos, eu chego na pior parte: a imensidão. Faminto, exausto, com o coração partido em mil pedaços, me pesando no peito como um grande parasita reverso, que ora me injeta vazio, e, em outros momentos, me enche de desespero.. Nenhuma dor pode ser maior do que essa advinda do desenlace com Ana. Nem a dor de andar nu no deserto de gelo. Ainda menos a dor de estar com o estômago vazio porque a caça se torna cada vez mais inacessível.

Eu ainda posso ouvir seu choro desesperado, sentido, ecoando na minha cabeça, e se misturando com outras confusões mentais. Eu luto para manter os olhos abertos, mesmo que o reflexo da pálida luz quase me cegue, por me queimar as íris com claridade.

Nesta dimensão é tudo branco e gelado. Não sei se odeio mais o dia ou a noite. A cruel noite, quando tudo se apaga e os predadores sem rosto, nem forma, ficam à espreita, no escuro profundo, sem lua e sem estrelas que os ilumine. Eles farejam o medo, o receio, a dor e o sangue. Eles perseguem, jogando sobre intrusos, como eu, o seu bafo quente e a sua saliva venenosa. A noite, que chega de repente, sem hora marcada, pega desprevenido, porque não há astro se pondo no horizonte. Tudo apenas se apaga de repente.

De toda maneira, não importa como seja, apenas eu consegui passar por essa imensidão gelada e voltar para a dimensão dos comuns. Há muitos dias que tento rastrear as crianças, não vejo pegadas e nem cheiro. Sinto-me péssimo por eles, pois, se estão vivas, estão aterrorizadas.

As minhas quatro patas estão severamente machucadas. Latejam, sangram nos talhos.

A luz severa reflete demais, batendo em paredes de gelo. Eu não sei há quanto tempo é dia. As horas passam de forma diferente nesse lugar. Os dias podem durar cinco horas terrenas ou trinta dias terrenos, não há como saber estando do lado de dentro. As noites são igualmente estranhas em relação ao tempo.

A cada minuto que passa eu tenho ainda mais certeza de que as crianças estão mortas. É tudo silencioso e agoniante. Eu não devo fazer barulho nem com a minha respiração, se quiser continuar vivo, então não posso gritar por elas, nem elas por mim. Como vou encontrá-las nesse lugar é um mistério. Será pior se encontrar mortas porque terei que levar os corpos para os pais. Os irresponsáveis que insistiram nisso. Deviam apenas aceitar que não era o destino de seus filhos estarem nesse teste. Se foram designadas para a savana, deveriam ter ido para lá.

Não posso deixar de sentir o meu coração partido mesmo estando nessas piores condições. Sinto-me culpado por isso. Tenho um pouco de raiva de Ana, por ter abalado o meu mundo. Estava indo bem, eu já pensava em desistir, então ela me deu aquela maldita chance, me tornando imensamente feliz. Para quê? Para me descartar e fazer de nós dois pontos de sofrimentos inacabáveis. Porque eu sei que Ana não está feliz. Eu a respeito, mas não posso deixar de ruminar a dor e me amargurar com esse sentimento.

Para onde eu irei após cumprir essa missão?

O clima está estranho, talvez a neve caia na noite. É o pior cenário possível. Apagando todos os rastros e motivos. Talvez apagando a minha vida e o meu sofrimento.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora