UM ADEUS MAIS DO QUE DOLORIDO

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O pior foi ver a minha mãe perguntando se eu sabia de tudo o que estava acontecendo, ao que responderam com uma afirmação. Eu estava trêmula de raiva e tristeza, no entanto, tentava encontrar um propósito em tudo aquilo acontecer como estava acontecendo. Talvez eles estivessem poupando ela, não eu.

Levantei do banco e desamassei o meu vestido, para controlar as minhas mãos trêmulas. Mantive o silêncio porque tinha certeza que se falasse algo, a minha voz me trairia. No meio do turbilhão mental, cruzei o olhar com o da minha mãe. Ela sorria com uma ternura descomunal. Havia marcas no jeito dela, nas roupas, na pele e na expressão, sinais de uma pessoa que sofrera demais. Eu também mentiria para poupá-la se fosse a minha vez.

— Sim, vovô. — Respondi, finalmente. — Você vai gostar da armadura, mãe. Eu mesma ajudei o vovô a desenhar.

Eu esperava que ela deixasse a minha mãe intacta.

— Estou certa que sim. — Ela falou com o tom amoroso que eu sonhara ouvir.

Andei até o meu avô que estendeu o braço para mim. Passei meu braço pelo dele, me sentindo uma flor murcha. Vovô, em um ímpeto louco, me pegou no colo, o que me surpreendeu ao ponto de eu rir. Ele andou até a porta, abriu e começou a correr comigo, como se eu não pesasse nada. Era divertido, ele sorria também, então pedi para ir mais rápido. Ele obedeceu até chegarmos perto da cozinha, que ainda estava cheia porque a festa lá fora acontecia. Era estranho como parecia que eu e a minha família tínhamos entrado em outra dimensão. Vovô me colocou no chão e usamos uma das passagens dos empregados para sair do castelo e dar a volta até a torre da oficina. Vimos um casal no bosque quando entramos na escuridão. A mulher abaixou o vestido da outra, expôs um seio, pegou e o resto eu não vi porque vovô tapou meu rosto com sua mão. Eu podia intuir o que estava acontecendo.

— Por que estamos nos escondendo? — Sussurrei.

— Porque não vamos passar com duas armaduras no meio de todo mundo. — Vovô respondeu, destapando o meu rosto.

Ele destrancou a oficina. Tínhamos inventado uma fechadura mais segura porque ali estava todo um aparato bélico de tecnologia aprimorada. Quando entramos, vi que as armaduras estavam ao alcance das mãos, e não guardadas. Não pude mais me conter e comecei a chorar.

— Vovô, por que você não me disse a verdade? Desde quando você sabia que ia embora e que a minha mãe viria? — Falei com raiva, tristeza e dor.

— Ana... — A voz dele estava cansada. — O vovô não sabia. Recebi a mensagem de que precisaria ir há duas semanas, mas não tinha certeza de que a sua mãe viria. A senhora Élora estava dando como certa a ida dela direto para a batalha.

— Isso é tão injusto! Agora ao invés de estar sem uma pessoa que amo, estarei sem duas. Sinto que uma parte de mim está me abandonando. — Desabafei em desespero. Meu corpo todo tremia, descontrolado.

Vovô me abraçou e eu o abracei forte, memorizando cada parte dele enquanto as minhas lágrimas molhavam sua roupa.

— Eu sinto muito, Ana. Muito mesmo. Você não sabe o quanto dói em mim ter que deixar vocês aqui, mas se eu não for, podemos sofrer graves consequências, e eu só quero que a nossa família fique em paz. — Ele estava com a voz embargada.

Olhei para seu rosto e o vi chorando. Aquilo me deixou ainda mais triste.

— Vovô... — Lamentei entre um soluço e outro.

— Eu prometo que vamos voltar, Ana. E espero que possa me perdoar por não ter falado antes. Eu não queria estragar a sua festa. — Disse enquanto limpava as lágrimas do meu rosto.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora