— Eu não posso acreditar no que meus olhos revelam! — Jis falava com autoridade. Sua expressão mesclava cansaço e indignação.
Abaixei a cabeça, pedindo em pensamento para que alguma parede me engolisse, mas tudo o que aconteceu foi ficarmos ali, estáticos, encarando o capelão. Eu devia dizer algo, contudo não sabia o que falar e nem seria a primeira a me expressar.
— Entrem, pois não podemos conversar aqui na rua. — Ele olhou para os lados, certificando-se de que ainda estávamos a sós.
A cena que se seguiu foi tão vergonhosa que mal pude segurar meu olhar altivo. Eu queria cobrir o rosto com as palmas das mãos e correr para o mais distante possível. Todo o meu sangue queimava na face enquanto, em fila, andamos atrás de Jis para entrar na sua casa. Eu estava tão perdida na minha idiotice que nem tinha reconhecido os arredores. Repreendi-me mentalmente, inúmeras vezes, com as piores palavras. Passamos pela porta, um por um, carregando nas costas o peso da humilhação. Ionel primeiro, eu no meio e Valenius por último. Nenhum de nós ousaria desrespeitar, contradizer ou erguer a voz para Jis. Primeiro porque ele era um representante de Sua Santidade, e segundo, porque Jis sempre fora um amigo muito valoroso para todos nós.
— Sentem-se. — Ele apontou para um banco de madeira enquanto tirava a capa de viagem.
Sentamo-nos e continuamos de cabeça baixa. Logo me ocorreu que meu avô saberia daquela aventura e as consequências disso não podiam ser calculadas.
— Quem vai falar primeiro? — Jis questionou com os braços cruzados na frente do peito. — Olhem para mim.
Encará-lo era doloroso. Escolhi algumas palavras de redenção na mente e ia falar, porém fui interrompida por outra voz que começou antes.
— Não tenho palavras para dizer o quanto errei, senhor Jis. Prometo não repetir esse equívoco. — Valenius se desculpou. Foi a primeira vez na vida que vi sua expressão de comiseração e autopiedade.
— Também é culpa minha. — Ionel assumiu. — Tenho andado perdido pelas noites e estou me tornando um imoral.
Jis olhou para mim.
— O maior erro foi meu, senhor Jis. Eu insisti para sair do castelo, e, quando Valenius tentou me impedir eu o forcei a continuar. Quando Ionel perguntou se eu consentia com seus atos carnais, eu respondi que sim, por livre e espontânea vontade, apenas para satisfazer a minha curiosidade. Castiga apenas a mim, pois sou aquela que, de nós, tem maior poder.
Parecia que meu coração ia sair pela boca a cada palavra que eu pronunciava. O silêncio seguinte foi pesado.
— Todos os três erraram, mas não pelos motivos que vocês pensam. — Jis alimentou a tensão. — Ionel errou por tentar contra a castidade de uma senhorita nobre, e por consequência, contra a sua própria. Os vícios degeneram o corpo e a alma. Você é jovem, tem futuro, não precisa ficar nos antros noturnos para se divertir. Sei que é comum, mas não consigo consentir com esses pecados. Já Valenius errou por arriscar a vida de Ana, e assim, quase pôr fim à sua própria. A vida é uma dádiva, um presente. Também é bom ter e manter um cargo de alta confiança no castelo, construir uma boa reputação e abrir as portas para si. Imagine se algo grave acontece com Ana, Valenius. Você poderia impedir? Não é só ela que tem família, você também tem. Seus pais ficariam desolados se você morresse lutando pelos frutos de uma decisão imbecil dessas. E, Ana, você errou por colocar a vida dos outros em perigo, a sua própria e a da sua família entram na soma. Como você pensa que todos ficariam se a única descendente morresse? Ou, pense se você fosse deflorada e engravidasse. Eu sei que você sabe como nascem os bebês. Imagine se você fosse violentada nas ruas. Além de tudo, o seu pai e o seu avô precisariam lidar com os resultados dos teus atos. Você precisa entender que como herdeira, o peso das suas decisões é maior. Não existe jeito fácil de ser você, então apenas aceite. Todas as pessoas dessa vila, dos campos, do castelo, vão depender de você um dia, e é assim que você cuidará de tudo?
Ele parou de falar, pegou um cantil de água que estava amarrado na cintura e molhou a garganta.
— Todos vocês vão rezar e meditar sobre o que fizeram. — Jis determinou.
— Por... Por favor, não conte para o meu avô. — Pedi, já começando a chorar. Eu estava pressionada e com medo.
Ele pensou um pouco antes de responder.
— Não conto, mas, se eu ver vocês fazendo isso outra vez, prometo que contarei as duas vezes. — Ameaçou com ar severo.
Se ele visse o ocorrido anterior...
— Perdão, senhor Jis. — Falei com humildade.
— Peça perdão para o espelho, pois você é a mais prejudicada. — Ralhou. — Voltem para casa e rezem cinquenta padres nossos.
Parecia que ele diria algo a mais, mas a porta da casa do capelão se abriu e um jovem de roupas religiosas apareceu lá. Tinha nariz afilado, cabelos ruivos e lisos e lábios finos, bem desenhados. Tinha a pele branca e olhos pretos, de íris profundas. Era tão belo que perdi o ar.
— Finalmente você chegou, Petrus. — Jis fez um gesto para que o homem entrasse. Ele olhou para nós e sorriu. — Conheçam o meu novo aprendiz, designado pela Igreja. Um pupilo.
— Tenho certeza de que Jis é ótimo para vocês e será um bom tutor para mim. — O homem de voz calma afirmou.
— Bem, depois vocês conversam mais, é hora de eles irem para casa. — Jis determinou.
Levantamo-nos. Cumprimentamos com um gesto de cabeça e saímos.
— Pensem em suas atitudes! — Jis falou enquanto nos afastávamos na rua repentinamente enevoada.
— Vou com vocês até o castelo. — Ionel ofertou.
— Não é preciso. — Valenius estava irritado.
— Faço questão. Toda essa névoa tapando a visão tende a ser perigosa. — Argumentou.
O silêncio absoluto nos seguiu pelo resto do caminho.
Ionel nos ajudou a pular o muro e depois não o vi mais. Deve ter ido para a própria casa. Eu e Valenius entramos no castelo pé ante pé e chegamos ao corredor sem maiores sustos. Fui para o meu quarto e me desmanchei sobre a cama, exausta demais até para pensar. Quando estava fechando os olhos tive a impressão de ver a luz do medalhão refletindo no teto. Fazia algum tempo que eu não via aquela luz. Porém podia ser delírio, pois eu estava a meio caminho entre os sonhos e a realidade. Não consegui segurar as pálpebras abertas por mais tempo.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
