O PRIMEIRO BEIJO

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Pela manhã eu não quis descer para tomar o desjejum. Em primeiro lugar porque eu desejava protelar ao máximo o encontro com Gueorgiana, em segundo, por ter acordado já um pouco tarde. Abri as janelas do quarto e vi a vida brilhar lá fora. Avistei Ionel, pensei em chamá-lo, mas desisti. Devido ao tempo sem contato, percebi no ato da observação que ele estava ainda mais alto. E atraente também.

Eu queria conversar com meus amigos, porém tudo o que me restou foram suspiros pelos cantos. O dia que estava bonito, de repente, se tornou sufocante. Aquilo era apenas uma prisão para mim, onde a minha única liberdade estava na calada da noite, como a dos gatunos.

Alguém bateu na porta.

— Já estou vestida, pode entrar. — Autorizei, pensando que era Valenius.

Voltei-me pronta para perguntar se ele estava bem, contudo o meu sorriso murchou. Era o meu pai.

— A benção, pai. — Pedi a contragosto, com a voz fraca de decepção.

— Deus lhe abençoe, Ana. — Respondeu sem energia e com grandes olheiras arroxeadas emoldurando seus olhos. Naquele momento ele tinha a barba muito comprida.

— Já vou descer para a lição. Eu só acordei tarde. — Justifiquei-me. Senti um aperto no peito porque era nítido o quanto estávamos fora de sintonia. Logo nós, que antes éramos tão unidos.

— Vim trazer algo para você comer. — Ele apontou para a bandeja em um aparador.

— Não precisava se incomodar. Obrigada. — A circunstância era tão desconfortável que eu queria gritar.

— Não é incômodo. — Ele limpou a garganta e desviou o olhar. — Então, sobre a sua festa...

— Eu não quero festa. — Interrompi. Não queria criar a mínima esperança.

— Você vai ter uma. — Ele afirmou sem emoção.

— Eu não quero uma festa, pai. — Bati o pé.

— É melhor se acostumar com a ideia, pois você terá uma. — Ele afirmou com autoridade pouco velada.

— Não me obrigue, pai. Por favor. — A frase era um pedido, entretanto o tom era de ameaça.

— O seu avô concordou...

— Traidor.

— Todos acham que é uma boa ideia, apenas você não aceita. Faremos a festa. Peço a sua colaboração, pois sem ela, pode ser doloroso para você. — Explicou com tom metódico.

Eu já estava nervosa.

— Isso é uma ameaça? — Lancei sobre ele um olhar ferido.

— É um aviso. Não aja como se estivéssemos torturando você, afinal, é apenas uma festa. Os preparativos vão começar e você não tem escolha. Então, apenas aproveite o processo. — Ele estava mais distante durante aquela fala sobre a festa do que em qualquer momento.

— Pai...

— Isso é tudo, Ana. — Ele saiu e fechou a porta atrás de si.

A manhã estava arruinada a partir daquele momento. Pelo menos daquela vez ele não gritou comigo. Se continuasse naquele ritmo, até a festa a nossa família estaria aos pedaços. Senti falta das palavras reconfortantes de Jis. Eu o chamaria para tomarmos um chá, no entanto, ele estava viajando outra vez.

Desci para a biblioteca e já entrei cabisbaixa, pronta para encarar o rosto de Gueorgiana. Aquele sorriso congelado, que parecia estar esculpido em pedra.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora