A GUARDA (PARTE 2)

48 12 122
                                        

Eu tinha aproveitado os anos de uma forma normal, como deveria ser, longe dos perigos maiores, mas para isso foi sacrificada a parte mais sensível do meu ser. Parecia ser mais do que isso, mas eu não entendia bem. Eu não era capaz. Só compreendi que era algo feito para o meu próprio bem e que estava acabado naquele momento. Que naquele dia, depois de muitos anos, o selo estava rompido.

Fui tomada por uma calma excepcional enquanto meu corpo parava de tremer. A minha mente se aquietava com todas as peças do quebra-cabeça se encaixando. Pricila pousou no chão. Sua aparência sobrenatural desapareceu.

Lágrimas silenciosas se derramaram pelo meu rosto. Soltei Valenius e ele me fitou, preocupado.

— Você sabia? — Questionei a ele com a minha voz rouca e embargada.

Ele anuiu com a cabeça. O olhar preocupado, como se tivesse visto a morte diante de si. A testa suada, cabelos desgrenhados.

Pricila colocou uma mão no ombro dele e disse com a sua calma habitual:

— Pegue um pouco de água para ela, criança-lobo.

Ela também sabia sobre Valenius. Apenas eu não sabia sobre ninguém.

Pricila sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos. Ela olhou no fundo da minha alma.

— Quem é você? — Perguntei sem saber se deveria estar grata ou temerosa.

— Eu sou... O que flui no tempo. — Foi a sua réplica. — O inevitável.

— Apenas me diga: por quê? — Pedi para ter ao menos uma resposta para me amparar.

— Para manter você segura enquanto vivia uma fase delicada e de descontrole. Eu fiz porque ainda não era tempo de lidar. Você era muito jovem e o sangue estava fervendo em suas veias. Você ainda é jovem demais, porém não posso fazer de novo sem que o fim seja trágico. Em situações comuns não poderia fazer nem pela primeira vez, porém o sangue Merak é forte e tem um pouco de influência de magia. Assim, mesmo sendo apenas uma humana, você suportou. — Explicou sem explicar. — Apenas saiba que estou aqui como uma amiga, e, jamais hesite em me pedir ajuda.

— Você precisa voltar para a sua família. — Apertei as mãos dela, desesperada por não ter me atentado a isso durante todo aquele tempo. Ela estava presa em mim havia anos, talvez tivesse até filhos que precisavam de sua presença.

Ela riu.

— Eu vou voltar daqui alguns dias para ver a minha esposa. Depois retorno para o castelo. — Avisou, para a minha surpresa.

Respirei aliviada.

— Vou passar por isso outra vez? — Me referi àquela experiência.

— Não. Hoje foi o auge do fim. — Ela prometeu.

— Sabes dizer porque esse medalhão brilha? — Perguntei. Era algo de minha mãe e sempre pensei que apenas ela entenderia.

— Não sei. — Respondeu porcamente fingindo que não tinha uma explicação.

Ela sabia. Com toda a certeza, eu podia dizer que ela sabia.

Valenius me estendeu um copo com água. Bebi e senti-me refrescar com uma inundação interna de sensação de alívio. Eu estava árida. Pedi para ele pegar a jarra e ele trouxe. Tomei quase um litro de uma só vez.

Ouvimos batidas na porta e um chamado para o almoço. Tentei me recompor, limpando o rosto com um lenço umedecido na água.

Levantei-me, inspirei fundo, caminhei para o almoço. A sensação estranha de que podia encontrar meu avô a qualquer momento e em qualquer lugar do castelo foi uma das primeiras que senti. Uma sensação comum que as pessoas sentem quando alguém partiu recentemente. Quem eu encontrei foi o meu pai, e Pricila, evadiu-se de nós.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora