Eu tinha aproveitado os anos de uma forma normal, como deveria ser, longe dos perigos maiores, mas para isso foi sacrificada a parte mais sensível do meu ser. Parecia ser mais do que isso, mas eu não entendia bem. Eu não era capaz. Só compreendi que era algo feito para o meu próprio bem e que estava acabado naquele momento. Que naquele dia, depois de muitos anos, o selo estava rompido.
Fui tomada por uma calma excepcional enquanto meu corpo parava de tremer. A minha mente se aquietava com todas as peças do quebra-cabeça se encaixando. Pricila pousou no chão. Sua aparência sobrenatural desapareceu.
Lágrimas silenciosas se derramaram pelo meu rosto. Soltei Valenius e ele me fitou, preocupado.
— Você sabia? — Questionei a ele com a minha voz rouca e embargada.
Ele anuiu com a cabeça. O olhar preocupado, como se tivesse visto a morte diante de si. A testa suada, cabelos desgrenhados.
Pricila colocou uma mão no ombro dele e disse com a sua calma habitual:
— Pegue um pouco de água para ela, criança-lobo.
Ela também sabia sobre Valenius. Apenas eu não sabia sobre ninguém.
Pricila sentou-se ao meu lado e segurou minhas mãos. Ela olhou no fundo da minha alma.
— Quem é você? — Perguntei sem saber se deveria estar grata ou temerosa.
— Eu sou... O que flui no tempo. — Foi a sua réplica. — O inevitável.
— Apenas me diga: por quê? — Pedi para ter ao menos uma resposta para me amparar.
— Para manter você segura enquanto vivia uma fase delicada e de descontrole. Eu fiz porque ainda não era tempo de lidar. Você era muito jovem e o sangue estava fervendo em suas veias. Você ainda é jovem demais, porém não posso fazer de novo sem que o fim seja trágico. Em situações comuns não poderia fazer nem pela primeira vez, porém o sangue Merak é forte e tem um pouco de influência de magia. Assim, mesmo sendo apenas uma humana, você suportou. — Explicou sem explicar. — Apenas saiba que estou aqui como uma amiga, e, jamais hesite em me pedir ajuda.
— Você precisa voltar para a sua família. — Apertei as mãos dela, desesperada por não ter me atentado a isso durante todo aquele tempo. Ela estava presa em mim havia anos, talvez tivesse até filhos que precisavam de sua presença.
Ela riu.
— Eu vou voltar daqui alguns dias para ver a minha esposa. Depois retorno para o castelo. — Avisou, para a minha surpresa.
Respirei aliviada.
— Vou passar por isso outra vez? — Me referi àquela experiência.
— Não. Hoje foi o auge do fim. — Ela prometeu.
— Sabes dizer porque esse medalhão brilha? — Perguntei. Era algo de minha mãe e sempre pensei que apenas ela entenderia.
— Não sei. — Respondeu porcamente fingindo que não tinha uma explicação.
Ela sabia. Com toda a certeza, eu podia dizer que ela sabia.
Valenius me estendeu um copo com água. Bebi e senti-me refrescar com uma inundação interna de sensação de alívio. Eu estava árida. Pedi para ele pegar a jarra e ele trouxe. Tomei quase um litro de uma só vez.
Ouvimos batidas na porta e um chamado para o almoço. Tentei me recompor, limpando o rosto com um lenço umedecido na água.
Levantei-me, inspirei fundo, caminhei para o almoço. A sensação estranha de que podia encontrar meu avô a qualquer momento e em qualquer lugar do castelo foi uma das primeiras que senti. Uma sensação comum que as pessoas sentem quando alguém partiu recentemente. Quem eu encontrei foi o meu pai, e Pricila, evadiu-se de nós.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
