Quando estávamos satisfeitos, zonzos de saciedade, um silêncio de profunda contemplação se estabeleceu. Todos olhavam para o fogo, hipnotizados.
Até que um dos novos guardas fez uma pergunta crucial: qual era a divisão do trabalho?
— Antes disso, quero que cada um de vocês me conte a sua história. — Pedi. — Eu escolhi a maioria de vocês por algum atributo que me chamou a atenção, mas quero que vocês me contem quem são.
Eles se entreolharam, surpresos.
— Então é verdade que fomos escolhidos à dedo, senhorita? — Uma das pessoas ousou perguntar.
— Sim, é verdade. — Afirmei. — E também é verdade que dos três nos quais mais tive fé, apenas dois restaram aqui.
— Qual de nós teve a honra, senhorita? — Outro guarda questionou.
Lancei um olhar para os gêmeos, que estavam lado a lado, e sorri. Eles ainda tinham aquele mesmo ar de quando os conheci na aula de latim, misturado com a ousadia de quando os vi no festival. Pouco tempo depois os recebi em casa para sondar o que pensavam. Eram um pouco rebeldes, mas, apesar da desconfiança, se comunicavam bem. Questionei se a irmã tinha interesse em lutas e os olhos dela brilharam. Expliquei que haveria uma seleção de guardas, sem especificar, e ela perguntou se podia ir com o irmão. Respondi que sim, que fazia gosto. E eles foram os primeiros a me apoiar horas antes, quando me fiz de louca.
— É melhor falarem primeiro, Alin e Aleana. — Incentivei enquanto me servia de mais Palincă.
Os gêmeos tinham uma sintonia perfeita e sempre completavam as frases um do outro. Era tão natural que provavelmente passava despercebido a eles.
— Somos de uma boa família. — Aleana falou primeiro. O fato de ter pouco seio deixava ela ainda mais parecida com o irmão. Ambos tinham prendido os cabelos pretos em rabos de cavalo. — Não houve muito drama em nossa vida. Os Olah estão aqui há muito tempo e possuem posses para viver bem.
Alin riu. A maior diferença era a voz encorpada que ele tinha.
— Não seja mentirosa, Aleana. — Ele riu mais. — Há sim um grande drama em nossa família e é você não assumir o seu papel. Se casar, ter filhos, ajudar a nossa mãe... Você sabe.
— Não me aborreça, Alin. A guarda precisava de mulheres também e eu tenho competência. — Endureceu a expressão. — Nossos pais precisam entender que quero seguir o meu próprio caminho.
Ela cruzou os braços. Era divertido assistir a irritação de Aleana, principalmente porque Alin estava jogando com ela. Porém era triste saber que as mulheres da guarda sofreriam um tanto pela posição. Mulheres naturalmente deveriam ser acompanhantes, mas para isso eu precisava apenas de Solis.
— Parece que algumas pessoas terão problemas em casa. — Valenius comentou.
— Essa é a nossa história. Somos apenas vilões e resolvemos seguir um caminho atrativo. — Alin finalizou.
Não, eram irmãos corajosos que resolveram desafiar a vontade dos pais. O próximo a falar tinha o olhar desinibido de brilho intenso. Era jovem, musculoso, de cabelos lisos, ruivos e mal cortados. Os olhos castanhos não conseguiam se firmar em mim e sempre dava um sorriso tímido e avermelhado quando olhava para o meu rosto. Mas era um brincalhão e já tinha feito algumas piadas aqui e acolá.
— Eu sou Aurel Popescu, tenho quinze anos e tenho dez irmãos. Meu destino era ser um lavrador, mas mudou quando a senhorita Merak começou a recrutar soldados. — Explicou. Meu queixo quase foi no chão porque ele era jovem demais. — Eu realmente quero servir a ela e não suporto arar a terra.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
