PAGANDO COM SANGUE

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O clã dos Luppus, Jis, Pricila e Borjan já estavam cansados da batalha que se estendia por horas. O horror de ver corpos amontoados e sem vida era inenarrável. A brisa suave da manhã e o cheiro da floresta molhada se mesclavam com o odor acre de sangue e fezes. Muitos dos amigos estavam feridos, banhados em sangue, com os pelos grudados em tufos bizarros. E estavam contentes, pois não tinham perdido nenhuma unidade de seu grupo cada vez mais acuado pelo número dos adversários. Do outro lado havia centenas, talvez milhares, de mortos, ainda assim eles estavam em maior número e continuavam progredindo.


Enquanto os paladinos externos lutavam, aqueles que ficaram dentro da muralha terminaram de fechar a única entrada existente, empurrando a grande pedra de toneladas com todo o artifício do qual dispunham além de sua própria força, e colocando os cavalos para puxar. Assim, ninguém poderia mais entrar com facilidade ou sem escalar as grandes estruturas lisas. E o grupo de perturbados, a mando de Petrus, fez questão de furar a estrutura da muralha até abrir um buraco em uma das rochas. Grande o suficiente para assistir o que acontecia lá dentro, mas pequeno demais para passar sequer um braço.


Pricila não queria usar as suas magias de maior intensidade porque sabia que não poderia controlar o raio de ascensão delas, e temia, porque a sua progressão acertaria todas as criaturas presentes. Elas eram frágeis demais para a sua grandiosa ancestralidade. Infelizmente, no campo de batalha não existe forma de separar os amigos dos inimigos de maneira ordenada. Contudo, a evolução da batalha a estava deixando sem opções. E em dada altura, quando os lobos começaram a cair de joelhos e os amigos ficavam cercados, ela não teve outra escolha senão apelar.


— Aguentem firme! — Gritou para Borjan enquanto voava.


Sentou-se no ar com as suas asas abertas e começou a cantar uma melodia que em poucos segundos fez todos os paladinos pararem suas ações. Todos aqueles que estavam do lado de fora do solo sagrado, em seu campo de visão, foram afetados, sendo imobilizados em um lugar e assistindo a tudo como estátuas. Todos. Se aquela canção fosse usada por muito tempo, logo todas as criaturas começariam a desenvolver demência até as suas mentes sucumbirem. Os passos seguintes da sereia foram delicados como uma cirurgia. Pricila desceu até o chão e, sentindo extrema dor, arrancou as próprias plumas, uma por uma, destacando de seus poros que sangravam logo que se viam sem penas. Colocou uma unidade na mão de cada um dos milhares de soldados. Também soprou em cada par de olhos inimigos.


Do outro lado do espaço sagrado, onde os olhos de Pricila não podiam alcançar, os paladinos chegaram da floresta com Ana desmaiada no dorso do cavalo. Bateram na rocha como sinal e cordas foram jogadas. Mesmo que os lobos ouvissem a movimentação, não podiam reagir porque era como a magia de Pricila funcionava.


E foi agoniante para Valenius quando sentiu no ar o cheiro de sua amada, intenso demais. Era desesperador estar preso enquanto reconhecia a olência do sangue dela. Sentiu-se encarcerado em um labirinto de espinhos. Tentava dar algum sinal, mas todo o seu esforço era em vão. Gritava e praguejava mentalmente por não ter forças para sair. Os calafrios faziam seu corpo estremecer enquanto a certeza de que Ana morreria sem que pudesse fazer nada o acertava com a intensidade que apenas a realidade possui. E Valenius chorou, detido naquela posição. As lágrimas percorreram seu rosto peludo de fera enquanto seus ouvidos captavam as batidas fracas do coração dela. Com a garganta trancada, Valenius lamentou. Provavelmente não poderia nem mais tocar no seu grande amor. Prometeu protegê-la, e fracassou mais de uma vez. Ninguém no mundo era mais desgraçado do que Valenius naquele momento. E tudo doía ainda mais porque sabia que Ana era inocente. Foi perseguida a vida toda sem motivo lógico para tal.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora