Foi a noite mais frágil da minha vida, quando comecei a entender tudo o que implicava o fato de ser mulher. Eu nunca seria a mais forte, nem a mais prestigiada, nem aquela cujas palavras seriam ouvidas primeiro. Meus conselhos de guerra ou de paz jamais seriam levados em consideração antes de passarem pelo crivo da aprovação de algum homem. O meu corpo nunca seria apenas meu, mas um algo em constante negociação para o mundo. E eu ainda tinha sorte por isso, já que aquelas em menos vantagem não podiam nem se dar ao luxo de negociar, no máximo, podiam escolher entre as piores opções. Não havia ninguém no meu caminho por enquanto, porque se eu não tivesse um pai, marido ou filho, provavelmente tentariam me tomar a qualquer momento. Nunca haveria descanso porque a minha natureza não foi treinada para tal. Era para lutar sempre, até a morte. Sempre vigilante, noite e dia, pelos erros que cometi ou não.
Comecei a pensar na noite em que Lwana morreu. Qual foi o grande pecado da minha mãe? Viver? Dar à luz? Amar? Por que ela pagou aquela conta? E eu estava pagando a conta também, por consequência, em uma interminável corrente de dor e sofrimento. Uma constante de mágoas.
Ali, no meu quarto, olhando o feixe de luar que entrava pela janela e parava no chão, entendi o quão sozinha eu estava na vida. E lamentei, em silêncio, encolhida, abraçada em minhas pernas, com a cabeça deitada sobre meus joelhos, por perder a última fagulha de infância. A última dúvida sobre o bem ou o mal, e sua existência, antes tão abstrata e separada. Mais palpável assim do que na realidade. Se eu analisasse bem, Gregório nunca admitiria a culpa porque no ponto de vista dele, ele estava certo. Sempre estaria. Muitos concordariam com essa afirmação devido à sua posição e a natureza de seu ser. Muitos diriam que é natural dos homens, o que se espera daqueles com sangue quente nas veias e bons olhos para o que é bom. Ele não era exatamente mau, mas ele era um homem malcriado, que seguiria sempre impune, sempre cheio de razão, tornando-se, por consequência, um mau caráter.
Meu pensamento alcançou as plantações das nossas terras. As meninas das lavouras, sem segurança alguma. As mulheres da vila. Quantas foram violadas e seguiram em silêncio? Senti calafrios violentos. Todos os pelos do meu corpo se arrepiaram.
Uma sombra bloqueou o luar que entrava pela janela, por um segundo. Dei um sobressalto na cama. Logo um lobo apareceu no escuro do meu quarto. Claro, e eu me senti mais segura naquele contexto bizarro do que em outras configurações mais humanas. Logo depois, Valenius voltou à sua forma humana. Suspirei e abracei meus joelhos outra vez, sentada sobre o colchão. Ele se aproximou e se sentou do meu lado. Não estava de armadura.
Ficamos em silêncio por algum tempo enquanto eu pensava no ocorrido, dividida entre o medo e o ódio.
— O seu avô disse para o guarda delator voltar para trabalhar aqui, depois que ele explicar por lá todo o ocorrido. — Valenius rompeu o silêncio.
— Ele provavelmente será retaliado. — Suspirei, cansada. A minha voz mal saía.
— Tenho alguma fé. O príncipe atual não é dos mais bem quistos e seu avô despachou um mensageiro declarando apoio político ao concorrente dele. Vai ter uma repercussão estrondosa não apenas na Transilvânia. Não quero me precipitar, mas talvez aumente a pressão para o seu avô aceitar o título de Conde. — Considerou, batendo a mão na cama com pequenos tapas.
— Ele não vai querer. Os príncipes não sabem se estão do lado do ocidente ou do oriente. É melhor não ficar entre reis e sultões. — Analisei. Os príncipes frequentemente se bandeavam pela Hungria, e, não era nada bom.
— O irônico é que o concorrente de Gregório é o primo dele. — Disse com uma ponta de humor. — E sim, é bom o senhor Merak não aceitar esse título. Veja o que aconteceu com o Vlad da Valáquia, o homem que não teve paz sendo conde. Viveu na guerra. Morreu na guerra.
— Toda essa confusão porque sou mulher. Se fosse um jovem, eu escolheria uma boa moça para casar e ponto. — Desabafei de repente. Eu me sentia confortável com Valenius.
O meu guarda me encarou.
— Não, se fosse rapaz você teria escolhas delimitadas pelas vantagens ou não, ou seja, também não escolheria sem causar conflitos políticos. Não tem relação com o seu gênero. — Defendeu-se.
Aquilo doeu um bom bocado porque erroneamente busquei a compreensão onde ela não poderia existir. Valenius não entendia e nem seria capaz de entender o ser mulher porque era algo da carne e da alma. Era vivência.
— Você não entende, Valenius. — E nunca iria entender, a não ser que nascesse outra vez.
— Talvez não. Explique com maior clareza. — Pediu cheio de boa vontade e intenção.
— Não, estou cansada demais para isso. Já me basta o fardo de viver a violência. Ser obrigada a detalhar e esmiuçar vai além da minha capacidade. — Falei com as lágrimas brotando nos olhos.
Finalmente ele estava ali: o choro. E desceu farto. Era um desafogo sem palavras. Valenius ficou perdido, mas me abraçou para consolar, o que me fez chorar mais porque eu sentia uma solidão acompanhada. Chorei tudo o que tinha para chorar naquele momento. Soltei Valenius, levantei, lavei o rosto na bacia, bebi um copo de água e voltei para a cama. Valenius não se mexeu nem um milímetro.
— De toda forma preciso agradecer, pois sem você aqui, eu teria sido estuprada. — Falei enquanto me deitava.
— Aposto que você não deixaria acontecer. Iria arrancar um dos olhos do maldito. Minha interferência serviu para você não entrar em problemas maiores. — Falou com ar divertido, como se eu fosse mesmo ameaçadora.
Fez brotar um sorriso nos meus lábios.
— Quem me dera. — Aconcheguei-me nos travesseiros.
— Dizem por aí que todas as mulheres Merak são um problema. Você já ouviu a história da sua bisavó Lwana? — Questionou com ar leve e soltou um ronco engraçado pelo nariz.
— Não...
— Então pergunte ao seu avô. Ouvi falar que ela deu uma canseira nele...
O silêncio nos pegou outra vez. Quando a boca não fala, a mente trabalha em dobro. Refleti sobre a violência das mulheres ser fruto da resistência aos homens. Se o mundo fosse apenas nosso, seríamos tão terrivelmente destrutivas? Ao menos na minha família, a verdade era dolorida. Lembrei outra vez de que era privilegiada e tinha apoio, mas fora daqueles limites, havia muitas mulheres desamparadas. E isso me fez chorar, outra vez. Valenius segurou a minha mão e começou a cantar uma música muito suave sobre um cordeiro que subiu a montanha para sentir o vento na face. Aos poucos a imagem do cordeiro substituiu as projeções trágicas na minha mente. Minhas pálpebras pesaram.
— Feche a janela ao sair. — Sussurrei sem força.
Logo mergulhei na escuridão.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
