CERIMÔNIA

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Chegar na cozinha e ver a minha filha conversando com um indigente foi um susto e tanto para mim. Assim que percebi que Ana tinha saído sozinha, resolvi segui-la. O mal sempre se aproveitou dos momentos de distração para agir. Quando cheguei a encontrá-la, havia um mendigo junto com ela. Imundo, esfarrapado, todo machucado e com um cheiro duvidoso. Os cabelos estavam compridos, assim como a barba. Um homem magro e desnutrido.

Quase puxei a espada para ele, mas, quando virou o rosto percebi que era Valenius. Havia três crianças do lado de fora da cozinha, uma delas entrou primeiro para pedir água. Estavam em igual estado lastimável.

Ana foi providenciar a água enquanto eu observava a movimentação.

— Senhor Borjan... — Valenius cumprimentou com uma voz estranha, arranhada, de quem estava com a garganta seca.

— A cerimônia de casamento está quase acontecendo. — Respondi sem dar muita abertura para ele se aproximar com aquela imundície. — É o casamento de Solis. Vamos Ana, depois vocês resolvem.

Ana olhou para os recém chegados enquanto considerava deixá-los ou não. Até que ela soltou a jarra com água.

— Sinto muito, Valenius. Você está em casa. Qualquer problema que tiver é só gritar, pois nós estaremos no jardim. — Ela pediu as escusas e me alcançou.

— Não se preocupe. Vou assistir daqui a pouco. — Ele a tranquilizou.

Ana e eu saímos da cozinha. Ela estava com um sorriso largo no rosto. Uma alegria que não cabia em si. Eu estava certo em ter preparado o casamento dela às escondidas. A minha intuição de pai não falhou.

— Não encoste demais nele. — Reclamei de mau humor. — Ele vai passar doenças para você. Nós não sabemos por onde ele andou nesses meses.

Ana fez uma careta brava para mim.

— Pai! — Repreendeu-me. — Você é tão insensível às vezes.

Esbocei um sorriso enquanto avistávamos a noiva na porta do salão. Solis estava linda, radiante, e me fez sentir como se estivesse casando uma filha. Havia um futuro feliz para ela.

— Corra, Ana! — Ela chamou. — Estou tão nervosa.

Passamos por ela e pela família dela.

— Tenebris está estonteante. — Ana instigou a amiga antes de sairmos na frente do castelo, caminhando para tomar o nosso lugar.

Naquela altura a minha filha já estava de braços dados comigo. Eu não poderia ser mais contemplado pela vida, e não podia ter encontrado de melhor humor do que naquele dia, onde tudo saiu perfeitamente bem, como mandava a minha rigidez de administrador.

Tomamos a nossa posição e a cerimônia começou. Vi Valenius assistindo de longe, enquanto se aproveitava da comida que estava pronta. Pelo menos já tinha lavado o rosto. Tenebris sorria orgulhoso e me fez lembrar de meu próprio casamento com Lira. Aquele momento tão especial em nossas vidas, onde fomos irrestritamente felizes.

Senti inveja vendo as famílias reunidas e perfeitamente agrupadas. Porém, eu estava grato por ter ao menos Ana comigo, pois ela era o meu maior tesouro, o meu presente para a humanidade e o presente da vida para mim. Uma pessoa da qual eu cuidei, que formei e que era motivo de muito orgulho por seu caráter. Uma visionária. Os humanos podem não ter poderes, mas são igualmente capazes de grandes feitos inesquecíveis.

Valenius aproximou-se quando a cerimônia acabou e foi recebido com extrema alegria. Havia muitos motivos para comemorar naquele dia.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora