Não tive paciência nem mesmo para desfazer o penteado, por mais que fosse necessário porque a tensão dos fios me deixaria com dor de cabeça ao acordar. Deixei meu corpo cair pesado sobre a cama, fechei os olhos e adormeci.
Caminhei pela floresta, onde as frestas entre os galhos e folhas deixavam passar a luz da lua. Meu coração acelerou quando ouvi sons de animais selvagens que pareciam ferozes, e, que estavam se aproximando de mim. Eu não sabia para onde ir, então segui o único caminho visível naquele cenário lúgubre. Um cantar soprano teve início por entre aqueles sons animalescos, e me alcançou, soando com clareza nos meus ouvidos. Eu não conhecia as palavras, só sabia que me davam paz naquele meio confuso. Segui pelo caminho enquanto o canto ficava cada vez mais alto e cheguei na borda de um penhasco. Estava escuro lá embaixo, sem nenhuma visibilidade. Diante daquela imagem incerta, eu senti tontura, e que meu coração saltaria pela boca, para dentro daquela cova de trevas. Sobre a imensidão do abismo, pairava uma figura conhecida. Pricila, de asas abertas, olhava para mim, quase estática no ar. Com olhar fixo. Sua figura era imponente e o canto vinha dela. Seu rosto se desfigurou por um momento e ela cantou como um pássaro. A voz teve eco no abismo. Ela ficou em silêncio e os sons assustadores voltaram a ecoar com mais intensidade. Senti um arrepio nas costas e que algo estava me observando. Não me contive, voltei o olhar para a fonte do medo, que fazia meu coração dar marteladas no peito. Era uma raposa de olhos pretos que me encarava pelas minhas costas. Olhos completamente pretos.
De repente, deixei de sentir medo quando vi a pequena criatura, e me aproximei para acariciar os pelos de sua cabeça macia, mas ela mostrou as presas, cheia de raiva, e fez eu me assustar. De sua boca aberta saíam todos os sons de feras que eu tinha escutado antes. Ela ficou em pé sobre as patas traseiras e me acuou contra o abismo.
Olhei para o penhasco outra vez, me sentindo tonta.
— Pule! — Pricila foi imperativa.
— Não, eu não quero morrer! — Gritei, me sentindo sufocada, mesmo que nada estivesse apertando o meu pescoço.
Coloquei a mão naquela parte do meu corpo, por instinto, e senti algo mole, rastejando.
— Pule! Confie e pule! — Pricila ordenou outra vez.
— Não... — Falei chorosa, confusa. — Eu vou morrer.
— Não tem como morrer duas vezes, a não ser que viva. — A voz dela ecoou poderosa como um trovão, fazendo o ar vibrar.
— Alguém poderia me proteger? Por que você não me protege? — Questionei, me sentindo sufocada no limite entre viver e morrer. Afastei a mão e vi que a gosma era o meu próprio sangue e as patas da raposa se tornaram sujas de sangue também.
— Eu não posso te proteger quando você não confia em mim. — Pricila disse sem emoção. – Abra os olhos, Ana Merak! Abra os olhos. Pule!
Senti que a vida me abandonava. Eu já não respirava mais. Então fechei os olhos e saltei de costas no abismo, com os braços abertos, como uma cruz.
Abri os olhos com a sensação de que tinha aterrissado no meu próprio corpo. O suor cobria a minha testa brotando dos meus poros com abundância. Levei a mão ao pescoço, desesperada, mas estava intacto. Arrastei-me até a jarra com água e bebi avidamente, sem por no copo, deixando um pouco do líquido cair no meu colo. A sede era grande demais.
Quando me saciei, virei para a janela, dei um berro e arremessei a jarra sem pensar quando vi Polaris e Estera na sacada. Polaris desviou tão rápido quanto uma piscada.
A porta do meu quarto foi escancarada e Valenius entrou, acompanhado por Solis.
— Sinto muito. — Arrependi-me do escândalo e coloquei a mão na testa, olhando para o chão. Puxei o ar antes de falar. — Eu não sabia que ficariam pessoas dentro do meu quarto.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
