Era mais tarde do que o comum para as minhas escapadas. Não me dispus nem mesmo a esperar por valenius no corredor, apenas andei rumo ao estúdio e destranquei a porta com as minhas chaves. Tomei um susto quando a luz do fogo da vela na minha mão iluminou o rapaz sentado em uma cadeira, aguardando a minha chegada. Valenius entrou pela janela.
— Você é louco?! Por quê não esperou por mim do lado de fora? — Falei enquanto acalmava a respiração esbaforida.
Ele sinalizou para que eu fizesse silêncio.
— Seu avô tem bons ouvidos. Fale baixo. — Sussurrou com seriedade.
Valenius estava vestido com roupas confortáveis de uso privativo, assim como eu usava a minha camisola que tinha tecido mais grosso, cuja transposição contra a luz não deixava ver a silhueta do meu corpo.
Peguei uma tela em branco, já preparada com cola para receber a tinta, e a coloquei no cavalete. Selecionei um carvão e comecei a rabiscar o rascunho com referência direta da lembrança. Valenius estava ali como uma companhia silenciosa, me observando. As íris de seus olhos curiosos fitavam a tela sob a luz quente e alaranjada do fogo. Ele estava genuinamente interessado no meu trabalho. A tela tinha mais de um metro de altura por um metro e meio de largura. Elegi alguns materiais para temperar uma cor e coloquei Valenius para moer um pouco de pigmento. Já estava em pó, mas eu queria que fosse mais fino porque eu gostava de uma mistura bastante homogênea. Eu usava um pesado pilão de mármore para essa função. O uso daquela ferramenta era tão árduo que me dava dor nos pulsos.
Terminei de preparar a mistura para a tinta e coloquei o pigmento dentro. A base da tela seria escura. Eu tinha tempo para esperar secar, afinal não poderia trabalhar durante o dia.
— Vovô me prometeu que Solis seria a minha dama de companhia. — Comentei enquanto dava pinceladas sobre a tela, com a tinta muito escura, que não chegava a ser preta.
— Perdão? — Valenius estava muito distraído olhando para os pigmentos e elementos primos.
— Durante a viagem eu disse que precisava de uma dama de companhia, e vovô prometeu que deixaria Solis ser. Porém, já se passaram muitos meses e tudo o que a minha amiga fez foi ficar distante da minha presença. Você diria que a ofendi? — Eu estava expressando um pensamento que me era recorrente.
— Não penso que você a ofendeu. — Respondeu sem dar muita importância.
— Valenius, não replique com qualquer bobeira, pois isso realmente importa para mim. — Suspirei, parando por um momento e olhando para ele.
Ele também voltou sua atenção para mim.
— Eu, de fato, não acho que você a ofendeu. Talvez o senhor Merak só não queira que ela seja sua dama de companhia. Pode ser que ele tenha planos para colocar outra pessoa nesse posto. — Falou. Naquele momento eu senti que Valenius estava no diálogo com interesse.
— Esse é meu medo. Ou era... Ele colocar Gueorgiana como a minha dama de companhia. — Finalmente tirei aquele pensamento do fundo da minha mente.
— Não me passa pelos pensamentos que seja esse o caso, mas também não posso afirmar que talvez ela não esteja planejando isso. Parece ser uma boa candidata. — Ele ficou em silêncio por alguns segundos, então se aproximou muito para cochichar: — Se eu contar um segredo, você guarda?
Ele falou olhando nos meus olhos, a menos de vinte centímetros de distância.
— Sim, pela minha mãe. — Prometi de coração aberto. Eu não quebraria aquela jura.
— Hoje, quando você estava com o senhor Merak, eu ouvi uma conversa enquanto andava pelo castelo. A senhorita Gueorgiana pedia para seu pai levar você a mais passeios, principalmente aos vizinhos. Quando ele disse não se sentir confortável com essa movimentação, ela fez um pacto de que cuidaria de você. — Contou com voz soprada.
— Maldita! — Praguejei, perdendo a mão na altura da voz. — Eu sabia, Valenius. Eu senti uma pontada na nuca. Era pura intuição sobre a traição.
— Eu nem diria, porém a sua percepção já contou. E conhecendo a senhorita como eu conheço, sei que, se for pega de surpresa, pode ficar chateada e reagir mal, perdendo a razão. — Explicou ao se afastar e voltar a sentar. — Tudo aqui tem cheiro forte. Sinto-me bêbado.
— Você pode ir, se preferir. — Ofereci. Ruminava meus demônios internos.
— Não. Quero ver como ficará este trabalho... — Recusou-se.
— Não posso negar que, para o aprimoramento dessa arte, é necessário algum pigmento azulado. Não claro como o céu, mais escuro. Como uma cor de roupa que o vovô tem. O problema é que além de caro é difícil de encontrar. — Reclamei. Não tinha relação com o assunto vigente, mas eu não podia deixar o ódio por Gueorgiana me dominar.
— Azulado como vinho escuro? — Questionou segurando o queixo.
— Sim, porém com menos tom de vermelho no meio. Como posso explicar? — Tentei pensar em um exemplo prático.
— Não é preciso, eu entendi. E você faz tinta de todas as coisas? Vi que tem algumas flores ali. — Apontou para o estoque de materiais.
— Faço de tudo que consigo transformar em pó ou líquido. — Respondi, pensando que já tinha encontrado alguns óleos interessantes.
— Você é muito talentosa. — Elogiou de maneira repentina.
Minha face ficou incrustada por um largo sorriso tímido e involuntário.
— Grata pelo elogio. Você é muito gentil, Valenius. — Enalteci também. — Bem, voltando ao tema de Gueorgiana, sei que tem algo acontecendo debaixo dos nossos bigodes.
— Você não tem provas. — Ele cruzou as pernas.
— Você estava comigo naquela noite. Você viu. — Fiz com que ele se lembrasse.
— De fato, mas além de não ser uma evidência, ainda estávamos errados. — Explanou sob seu ponto de vista.
— Isso me corrói. Preciso espairecer fora desse castelo. — Suspirei e olhei para cima.
— Vá a um passeio autorizado. — Sugeriu.
— E correr o risco de precisar engolir a presença de Gueorgiana? Nem pense. — Cortei a ideia pela raiz.
Terminei em silêncio. Com medo de deixar a tela ali, pedi para Valenius esconder no dormitório dele, pois sempre mexiam no meu. Ele resistiu no começo, mas concordou quando dei uma moeda como gratificação. Andamos pelo corredor com o coração na mão, contudo não fomos pegos.
Dormi pensando em formas de desmascarar Gueorgiana.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
