Ele também chorou diante daquela abominável despedida. Meu pai chorou copiosamente, assim como eu. Imaginei que ele também sentia se esvair por entre os dedos o calor e a completude do nosso lar. Pelo menos tínhamos algum consolo um no outro. Era o resto de um lar feliz e estruturado, porém era algo mais do que nada. Eu sentia como estranha a maneira fria e comum como eu agira na presença da minha mãe, mas, conforme a adrenalina passava, eu era tocada pela realidade. Decidi, em um impulso, não pensar muito naquilo. Puxei o ar, segurei no pulmão por alguns segundos e soltei com força.
— Pai, vamos aproveitar a festa. — Pedi. Ele me olhou de uma maneira estranha. — Esse dia não vai mais voltar e eu não quero ficar aqui chorando quando um dos meus maiores desejos se realizou.
— Você...? — Ele estava perplexo.
— Eu só quero juntar os meus cacos e fazer algo com eles, pai. Além disso, temos a nossa própria batalha pela frente e muita gente de grande influência está no nosso salão agora. Devido à ausência de vovô Barakj, é melhor mantermos as relações em uma constante estável, para o bem de todos. — Afirmei enquanto calava a parte de mim que queria se jogar na cama e chorar até morrer. A parte que flertava com o acinzentado pálido da tristeza.
— Você tem razão, minha filha. — Ele falou enquanto alinhava a roupa.
Porque meu pai era uma pessoa de grande coração e sentimentos intensos, contudo, também era um homem prático.
— Somos uma dupla e devemos funcionar como tal para manter tudo organizado. Não devemos demonstrar fraqueza, pai. Jamais devemos permitir que o inimigo nos entenda e nos domine através da nossa dor e dos nossos medos. Agora entendo o motivo de vovô Barakj parecer sempre inatingível. — Falei enquanto caminhava até a porta, organizando a minha figura da forma como podia.
Papai concordou com um gesto de cabeça e também se pôs a desamassar a própria roupa.
— Vou retocar o pó e já volto.
Era a minha obrigação parecer ainda mais deslumbrante e fria, principalmente indiferente. As pessoas, a partir de então, deveriam ter a minha palavra como o peso do ouro: valiosas e irreversíveis. Enxerguei no espelho do meu quarto a pura destruição. Lavei o rosto e refiz todo o trabalho que um séquito nínfico de serviçais tinha feito mais cedo. Enquanto eu passava o pó brilhante, a epifania da nova realidade se fazia presente, praticamente palpável no ar. Eu estava com medo, despreparada e me sentia fraca. As minhas mãos tremiam. Eu ainda queria chorar, mas segurei, deixando se formar um nó maciço na minha garganta. Eu sabia que quando pisasse naquele salão as pessoas fariam perguntas. Haveria inúmeras especulações. Nasceriam lendas sobre aquele momento. Eu teria que ser paciente e colocar a Ana diplomática em ação.
Falei as vogais na frente do espelho, algumas vezes, apenas para desembargar e fazer a voz voltar ao estado natural. Encarei meu reflexo, tendo a certeza de quem eu era e por onde iria a minha caminhada. Um sorriso brotou em meus lábios quando, no meio da confusão mental, uma informação ganhou brilho: eu tinha visto a minha mãe. Eu tinha tocado a sua pele e ouvido aquela voz, pessoalmente. Eu aspirei seu cheiro de vida. E, na frente do espelho, eu dei o sorriso mais largo e feliz daquela noite enquanto um arrepio de prazer percorria o meu corpo. Era uma benção poder ter visto meu rosto naquele momento tão genuíno, pois apenas assim eu conseguiria registrar em uma pintura. Sim, eu o faria.
Havia algo de especial naquele momento de solidão. Eu não me sentia mais perdida, nem fraca, irrelevante ou confusa. De repente, eu me sentia completa. Toda a minha vida era repleta de sentidos.
Alguém bateu na porta. Pensei que era o meu pai e autorizei a entrada, mas era Valenius.
— Como você está? — Perguntou com certo cuidado. Seu olhar estava cheio de ternura e apoio. — Não consigo me mover direito com tanta gente no castelo, então não pude prestar ajuda como deveria.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasyAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
