Há duas fortes prisões em nós: a mente e o coração. O ser que se encarcera em uma delas, torna-se incapaz de fugir, ainda que tenha a chave nas próprias mãos. Eu descobri da pior maneira o peso de uma decisão irremediável.
Eu continuava a mesma pessoa, com o mesmo rosto, nos mesmos trajes, arrastando-me pela mesma exata rotina. Coloquei os meus planos adiante, como tinha sonhado outrora. Porém, apesar de tudo estar no devido lugar, e de ser primavera, eu vivia dias sem cor.
Sentei-me quatro ou cinco vezes naquela poltrona, pensando em responder a última carta de Dionísio, contando o aceite de sua parceria, mas quando eu encostava o bico da pena na tinta, as lágrimas vertiam, incontroláveis. Foi então que descobri o verdadeiro peso do amor que eu sentia. Eu jamais experimentara a ausência de Valenius desde que o conhecera, e, estando naquela posição, preferia dormir o dia todo para não sentir a falta que ele fazia em cada mísera parte da minha rotina. Todas as pessoas à minha volta eram boas pessoas, mas nenhuma delas era a pessoa certa. Eu confiava em Solis de todo o meu coração, porém meu grande amigo e confidente era Valenius. Vez ou outra eu flagrava os olhares piedosos de meus amigos, e aquilo me cortava o coração. Principalmente porque eles realmente tinham motivo para se preocupar.
Descobri que Valenius tinha cheiro e eu amava, quando ele já não estava mais ali.
Os dias e as noites passavam de forma mecânica e eu só queria que Valenius entrasse por qualquer porta ou janela, dizendo que me perdoava apesar de eu ser uma tola. Quando o meu coração se enchia de dor e as represas de mágoa rebentavam dos meus olhos, eu me trancava no ateliê para chorar, abafando a boca. Encolhida em um canto, sentada no chão, tremendo em desamparo.
E por muitas vezes me culpei porque todas as pessoas partiram sem eu me esforçar mais para fazer valer cada minuto que estive com elas. Eu deixei o tempo escorrer por entre os meus dedos enquanto fui apenas displicente com as minhas bênçãos. Eu não valorizei o que tive. Não retive. Estando sozinha, sem Valenius, contemplei a possibilidade de ter uma criança fruto do nosso amor, para dividir os dias tão vazios. Para falar todas as coisas bonitas e divertidas que eu pensava sobre ele, como eu falava de minha mãe e meu avô para o meu pai. Para amar.
Eu entendi o meu erro enquanto cultivava uma esperança dolorosa de que ele retornaria.
Na terceira semana após a sua partida, pedi um pouco de privacidade para a guarda. Sozinha, no corredor dos nossos quartos, finalmente tomei coragem para entrar naquele que pertenceu à Valenius. Sua ausência explodiu em meu peito. Saí e fechei a porta enquanto as lágrimas caíram entre a minha respiração entrecortada, e eu crispava os meus dedos, sentindo uma pontada na coluna. O cheiro dele estava concentrado naquele lugar.
Andei sem destino, com as vistas embaçadas, até que cheguei à porta que dava acesso ao topo de uma das torres. Aquela que permitia ver no horizonte distante e os que chegavam nas nossas terras. Se eu viera ali antes, mais do que duas vezes na vida, era muito. Frente àquela porta eu decidi que era o melhor lugar para eu esperar: um quarto empoeirado como se tornava o meu peito, olhando o horizonte escurecer ao entardecer da minha alma.
Ergui a saia do vestido e subi as escadas estreitas, me arrependendo por não ter levado uma fonte de luz, mas também nem fazia mais diferença. Arrastei-me pelos degraus até chegar à porta de madeira maciça no topo da torre.
Empurrei-a e dei de cara com o inesperado. O quarto estava arrumado. Havia nele uma grande poltrona de madeira e alguns itens de uso pessoal do meu pai. Meu próprio pai estava lá, sentado perto de uma vela acesa, contemplando o crepúsculo através da grande janela aberta da torre. Ele parecia sereno e nem olhou para o lado quando entrei e o salto de minha bota fez barulho na madeira do piso.
— Eu sabia que um dia você chegaria aqui, minha filha. — Ele falou sem olhar para mim. Sua voz estava indisfarçadamente embargada.
Meus olhos verteram lágrimas silenciosas porque entendi que ele estava lá esperando a minha mãe voltar, enquanto olhava para o horizonte indiferente, escuro, frio e distante.
— Pai... — Sussurrei com um desespero mudo, abafado. Ele finalmente olhou para mim e pude ver as lágrimas silenciosas descendo em seu rosto. — Eu errei.
Aproximei-me e sentei no chão, ao lado dele. Encostei a cabeça em seu colo e ele acariciou meus cabelos enquanto chorávamos juntos por sofrimentos distintos e semelhantes. Pude sentir a sincronia de nossa dor enquanto via, ao longe, a estrada deserta. Nem uma sombra de esperança caminhando na nossa direção.
— Não se culpe, minha filha. Não existe maneira fácil de viver. — Meu pai tentou me consolar enquanto acariciava a minha cabeça.
— Essa dor... Pai, como você suportou essa dor? — Falei com a voz presa.
— Eu não suportei, Ana. Apenas fiz as pazes e a tornei minha amiga. A dor de um lado e a esperança do outro. E uma grande dose de paciência para esperar. — Ele falou com a voz calma e resignada.
Compreendi naquele momento o verdadeiro significado da esperança. Esperando sempre por algo bom. O ato de esperar.
Ficamos em silêncio, em companhia da dor, até que parei de chorar.
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Ana Merak - Dever e Honra
FantasiAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
