A manhã seguinte foi ruim também. Acordei inchada e repentinamente parecia que nenhuma das minhas roupas era adequada ou confortável o suficiente. Chorei enquanto lavava o rosto, me preparando para as tarefas do dia. Não tinha mais como fugir.
Encontrei todos na mesa do café, até Gueorgiana.
— Como está se sentindo hoje, Ana? — Meu pai perguntou.
— Muito bem. — Respondi com o ânimo de quem tinha levantado de um caixão. — E o senhor?
— Animado. — Disse com o tom mais desanimado do planeta.
Naquele momento eu senti falta das piadas de vovô. Uma rápida leitura de sua postura entregou-me que aquele à mesa não era o meu avô, mas Barakj Merak. Ele estava passando uma mensagem austera para a nossa convidada. Aquilo, mesmo que não me envolvesse, era também cansativo. A nova meta na minha cabeça era aprender o mais rápido possível tudo o que ela tinha para ensinar e depois despachar ela da nossa casa. Eu daria sangue naquele objetivo.
Os conhecimentos de Gueorgiana eram divididos em: boas maneiras, conhecimentos históricos, conhecimentos geográficos, literatura, cálculos, piano e danças de salão.
Papai acompanhava-nos de perto, sempre junto durante as aulas. Eu, uma mente mediana para o aprendizado, sofria, mas pedi intensidade máxima nos exercícios. O tempo dos meus dias foi fracionado e tudo o que eu fazia era estudar, do nascer do sol até as horas mais sombrias da noite. Eu me dedicava, pedindo para Valenius me ajudar com as danças quando ninguém estava olhando. Ficava até as madrugadas decorando conteúdos para passar mais rápido nos testes.
— Oh! Você é a melhor aluna que já tive, Ana! — Gueorgiana comentava, sorrindo para o meu pai.
Papai estufava o peito, orgulhoso. Os olhos dela brilhavam. Ocorreu mais do que dez vezes.
Com o passar do tempo tive a sensação de que Gueorgiana estava diminuindo o ritmo de ensino. Pensando de modo realista, era perceptível que ela passava muito tempo no jardim ou conversando com as pessoas do castelo. O inverno chegou, ficamos em casa, vendo a neve lá fora. Era a oportunidade perfeita para ela me ensinar mais, porém sempre dizia que eu era competente demais e precisava de lições mais adequadas para o meu nível.
Fiquei frustrada.
Não me escapou, depois de tantos meses, a percepção de que ela olhava diferente para o meu pai. Era um encanto distinto. Suas falas para ele sempre eram adocicadas, mas ele parecia ter sempre a mesma postura formal. Meu avô mantinha uma ruga de desaprovação cada vez mais vincada em sua testa.
Ao cabo do inverno eu já não aguentava mais tantas lições, a tentativa de ser sagaz e aquele ar condensado no meu lar estavam me exaurindo.
A neve já tinha derretido quando, em uma noite de primavera, fresca, saí do meu quarto, esgueirei-me pelos corredores e cheguei no jardim. Sem pensar, andei para o bosque. A lua estava alta; eu queria respirar. Puxei o ar com força, sentindo que vida nova entrava em mim.
Senti-me ainda mais viva quando ouvi o som de passos leves e meu coração ribombou no peito. Olhei para trás e nada vi. Quando voltei o rosto para frente dei de cara com um enorme lobo camuflado nas sombras.
— O que estás fazendo? — Valenius questionou.
— Eu... Eu não sei. — Lágrimas inesperadas rolaram pelo meu rosto.
— Não sabe? Eu conto. Você está arriscando a sua vida, saindo à noite sem avisar. — Ele estava genuinamente irritado.
— Sinto muito, Valenius. Eu não queria incomodar. — Limpei a face com as costas das mãos, todavia meu choro não parou.
VOCÊ ESTÁ LENDO
Ana Merak - Dever e Honra
FantasíaAna Merak descende de uma família que se encontrou com a magia em condições adversas. A mãe de Ana era humana, mas foi recrutada para lutar pelo equilíbrio do mundo. Em meio ao caos da vida, a prestigiada Lira Merak deu à luz suas filhas, e teve uma...
