TEMPO AMARGO

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Segredos. Os segredos existem para nos proteger do pior ou nos afundar ainda mais no poço da paranóia. A minha vida foi permeada por segredos com os quais eu conseguia lidar de alguma maneira, quase sempre positiva. Eu não me enrolava entre os novelos de sussurros e informações a serem mantidas em sigilo, sendo que a aceitação foi a minha maior companhia nessa tarefa. Porém, cheguei em um estágio no qual o meu maior segredo era grande demais: eu tinha presenciado tudo. Todo o sacrifício do meu pai. Eu estava morta durante aquele ritual? Não posso afirmar, mas digo que eu estava consciente, com toda a certeza. Eu senti, no meu peito imaterial quando as garras de Pricila se entranharam em mim. Senti a vida fluindo, jorrando, de forma agoniante, quase como um líquido gelado quando se espalha. Eu senti quando meu coração voltou a bater e a sensação estranha de ser tragada do meio do nada para o caos da vida. Junto com a vida, veio a culpa por ter extirpado dez anos da existência de uma das pessoas que eu mais amava.


Logo que retornei, em um gesto involuntário, abri os olhos. Era como renascer, e eu não tinha escolha entre me manter imóvel enquanto absorvia a informação ou dar sinal de vida. Naqueles breves segundos de desespero tácito, silente, fui forçada a realizar uma escolha difícil entre demonstrar que eu sabia e expressar a minha gratidão ou fingir que não sabia que tinha roubado dez anos da vida dele e, por consequência, nunca dizer sobre a minha gratidão.


De toda forma, eu sentia e sentiria culpa. Muita culpa. Essa culpa sempre estaria atrelada à dor e ao sofrimento vindos do medo da perda. Não havia o que fazer.


Recordo-me do final. O céu azul, o sol brilhante, o barulho sinistro de todas as pedras desmoronando em conjunto. Não era mais um solo sagrado, mesmo assim tudo desapareceu na frente dos nossos olhos, entre o cerrar e o levantar das pálpebras. Vi Jis voar sobre mim, com as suas seis asas, e me observar do alto daquela forma especial. Seus olhos não eram nada humanos. Ele pousou devagar e enquanto andava na minha direção, seus paramentos foram desfeitos e as energias voltaram para os nossos medalhões. eu ouvia o choro dos Luppus pela perda de um amigo e companheiro. Mais um luto na longa trajetória da vida. E os corpos dos inimigos mortos antes da ação de Jis permaneciam ali, sendo a nossa missão recolher, prestar os últimos ritos e enterrar em algum lugar. Provavelmente em solo cristão, onde meu próprio pai não poderia ter o seu descanso eterno. O fedor acre da morte nos rondava, os rostos estavam cansados, os corpos amigos estavam machucados, cobertos de sangue seco, com as roupas rasgadas. Valenius chorava mais alto, com desespero, perdido entre todos os sentimentos e pensamentos perturbadores que teve. Ele me abraçou, deitada no chão, enquanto dizia que me amava e que temeu pela minha morte.


Todos os toques foram inesquecíveis, mas nenhum deles poderia superar o movimento frouxo da mão do meu pai segurando a minha. E o riso feliz, estrangulado, que escapou por entre seus lábios fracos, antes de ele desmaiar de novo.


Ao voltar para o castelo e recuperar o controle de nossas vidas, vi ao longo do caminho aquela ignorância corriqueira sobre as dores dos outros. Ninguém se importava e nem sabia da nossa grande batalha de vida ou morte. Eu observei o tempo, transcorrendo normalmente, apesar de tudo. Talvez eu tenha entendido um pouco mais a minha mãe, que vivia para manter aquela ordem intacta.


Com o passar dos dias, cresceu também o receio em mim. Seria normal ver meu pai envelhecendo e temer a morte, pois essa é uma parte comum da vida de qualquer pessoa, contudo, essa sensação foi ampliada pelo fato de que eu provavelmente não poderia esperar que sua vida fosse tão longeva. E todos os dias eu acordava com medo de que ele estivesse morto, e, muito felizmente, ele estava mais vivo do que eu. Sempre me dando sorrisos, abraços, carinhos e dizendo sobre como nos amava e o quanto era feliz. E, ele ainda esperava pela minha mãe, todos os dias, no alto daquela torre.


Era impossível ignorar que ele estava envelhecendo mais rápido daquele ponto em diante.


Um belo dia, não muito tempo depois do ocorrido, quando já estava recuperando a saúde, papai colocou na cabeça que tinha ânimos de se corresponder e passou a escrever cartas para a minha mãe. Toda semana ele escrevia umas três ou quatro. Às vezes sabíamos o conteúdo porque ele dizia que iria contar algo para ela, ou me ameaçava dizendo que ela iria me corrigir, enquanto que, outras vezes, eram segredos para manter entre os dois. São os feitos de um bom casal. E as cartas, lacradas, eram colocadas dentro de um grande baú de madeira.


Sobre o que o meu pai tinha feito, todos sabiam e fingiam não saber. Ninguém tocava no assunto, nem mesmo Valenius me falou. Era um pacto silencioso com o qual eu colaborei. Deixei que meu pai tivesse paz na vida, ainda que isso significasse não poder agradecer pelo seu ato diretamente. Mas eu aprendi a compensar de outras maneiras.


***


Com o passar dos anos e a ajuda dos amigos eu me restabeleci e a vida voltou ao normal quase que completamente, mas era um tempo amargo de grandes segredos. E um dos segredos era que Valenius não queria mais me tocar. Ele não me tinha mais na intimidade da alcova. O fogo da paixão e do toque não queimava mais entre nós.


Passamos muitos anos sem ter intimidades, apesar da convivência absolutamente pacífica e amorosa. Eu queria, eu precisava, mas eu não ganhava mais do que beijos quase castos de tão leves.


Ele sempre me evitava, dizendo que estava cansado ou inventando outra desculpa esfarrapada.


Por um determinado espaço de tempo eu o segui, para saber se ele tinha uma ou um amante, mas nada encontrei além de sua dedicação às atividades que lhe cabiam. Quando finalmente me cansei do silêncio e do frio da distância, eu perguntei diretamente se ele não me amava mais, mas ele não admitiu. Comecei a pensar sobre encerrar aquela união, porém, antes eu faria um último esforço.

Ana Merak - Dever e HonraHistórias para pegar e não largar. Descubra agora