Art gostava da capital. Os primeiros dias de suas férias seguiram a palavra à risca: foram férias. Caminhou sozinho, atento, observando os trejeitos das pessoas e o modo como falavam. Entrou em alguns museus, nos velhos e novos, e apreciou arte de uma forma que nunca tinha feito antes. Foi até o centro, caótico e movimentadíssimo, e olhou algumas lojas até se lembrar que quase não tinha dinheiro.
Mas não precisa ser assim, pensou. Com um toque no ombro qualquer vendedor abriria o caixa pra mim, e me daria o quanto eu quisesse. Mas não fez isso. Depois da primeira noite no hotel o assaltante voltou, e realmente lavou seu carro. No início aquilo o impressionou, e fez seu ego crescer, mas depois o assustou. Isso foi brincadeira pra mim.
A capital era muito mais velha que a cidade pequena onde crescera, e suas bibliotecas tinham fama nacional. Alguma delas tinha que ter algo interessante. Uma história daqueles como ele, algum livro sobre alguma ordem, organização... talvez até alguma explicação nova! Nutria a esperança que isso fosse verdade, mas um lado mais lógico dele sabia que era improvável. Haveria uma torrente tão grande de mentiras que qualquer verdade estaria enterrada demais para se ver. "A verdade sobre nós é tão limitada que ninguém mais nos leva a sério", dissera Merriam. "E não iremos perdurar muito. O mundo não tem mais lugar para nós."
A declaração tinha chocado o jovem profundamente, mas poucos anos depois percebia que ela era ingênua. Um de nós, se for poderoso o suficiente, pode durar para sempre. Pode sumir do mundo, e retornar ao seu bel-prazer — ele riu — pode até dominar o mundo. Talvez estivessem se tornando cada vez mais raros, mas nunca iriam realmente desaparecer. Art não deixaria.
De qualquer forma, sua esperança de achar algum livro era tão pequena que resolveu deixá-la para depois, com medo que a desilusão o fizesse ir embora antes de aproveitar tudo que a cidade tinha a oferecer. Comeu velhas guloseimas, sentou-se em praças antigas olhando o pessoal de escola... Será que algum daqueles grupos de amigos teria o mesmo destino do dele? Separados por um Merriam...?
Viveu a primeira semana como um mole em todos os momentos, a não ser quando era assaltado. E aconteceu, mais de uma vez. Não conhecia a cidade bem o suficiente para saber os lugares que deveria temer, e, mesmo que soubesse, não temia lugar algum. Com um olhar e às vezes um toque fazia os assaltantes virarem-se sem palavra, pedirem perdão... Alguns resistiam, e, quando estes finalmente dobravam o joelho a ele, Art via que percebiam com quem estavam lidando. Um deles chorou e implorou por perdão, até que o jovem se cansou e fez o homem ir embora, sem memória daquela noite e motivado a arrumar um emprego como pintor.
Mas nos dias finais os assaltos ficaram mais escassos, e isso o fez perceber que só estava tranquilo por causa deles. Sem os assaltantes não moldou o mundo de nenhuma forma. Sem moldar o mundo uma parte dele era deixada para trás... E sentiu seu peso. Não era um vício, era só... outra mentira. À sua maneira, era o seu maior vício.
No sétimo dia depois de chegar na capital caminhou pelas ruelas mais apertadas, sujas e sórdidas que achou, mas ninguém foi importuná-lo. Procurou cachorros raivosos, passou ao lado de moradores de rua, e todos desviavam os olhos. Talvez tenham finalmente visto o que sou, pensou o jovem. Talvez agora eles tenham medo.
Depois da meia noite desistiu, prevendo que não daria em nada, e caminhou de volta ao hotel. As avenidas daquele lado da capital eram largas mas ao mesmo tempo claustrofóbicas, com grandes prédios parecendo muralhas aos lados e enormes árvores entrelaçando-se no meio da rua, formando um domo verde e negro entre os olhos dele e o céu. O movimento era lento, e Art deixou-se caminhar no meio da rua, pisando nas poças no asfalto esburacado. Gostava de noites como aquela. Conseguia aproveitar a solidão.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
