Capítulo 5: Os Mantos da Capital (VII)

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Cella se levantou, fazendo várias cabeças na praça de alimentação se virarem. Fora de seu campo de visão, Alesia e Lena trocaram um olhar nervoso.

— Cella — disse Alesia, tentando soar casual. — O banheiro do outro lado é mais limpo, todo mundo usa o desse lado.

Alesia era muito boa em mentir, isso Lena sabia. A mentira boa é a mentira plausível, de alguma forma verdadeira. Não é a mentira em si, mas o objetivo por trás dela que a torna difícil. Cella hesitou, e Alie manteve a expressão.

— É verdade. — Ela sorriu. — Obrigada, Alesia.

Lena nunca entendeu por que os garotos pareciam mais atraídos por Alesia do que por Cella. Observou atentamente o sorriso, e de novo concluiu que as duas eram, no mínimo, igualmente bonitas. Talvez fosse algo na atitude delas, Cella com seu jeito meigo e compreensivo, Alesia com seu caráter forte e às vezes teimoso... Não fazia sentido. Nunca entendia como Marcella ficava em segundo plano.

A garota se afastou da mesa onde as duas outras estavam sentadas, e logo foi engolida pela multidão que se movimentava na praça de alimentação do shopping. Alesia e Lena suspiraram.

— Essa foi perto — disse Alie, olhando na direção do banheiro que Cella quase foi. Algumas mesas à frente, levemente visíveis entre as várias cabeças sentadas, estavam Art e Von. Indo para o outro lado, Cella não os veria.

— Me diz — começou Lena —, como que ela apareceu aqui? Ela já tava no shopping?

— Não, eu... Depois que saí de casa topei com ela, e... — Era raro ver Alesia baixar os olhos daquela forma, insegura, talvez até envergonhada. — Eu não consigo mentir pra Cella.

Lena mal pôde acreditar. Não julgava a amiga por isso, mas sabia que Alesia era muito boa em manipular os outros; já a vira fazendo isso meia dúzia de vezes com Trevor, Von, e até Art, de maneira tão eficiente que os garotos nem percebiam. Mas falava a verdade: a tentativa de fazer Cella mudar de rota foi desastrada, coisa de amador.

— Não tinha como não convidar ela — concluiu Alesia, corando, derrotada.

Lena suspirou.

— Bom, pelo menos você conseguiu fazer ela ir no outro banheiro. Se ela encontrar um dos dois vai dar merda. — Viu que Alesia assumiu uma careta de surpresa, mas ignorou. Não era de seu feitio falar palavrão.

— O que você acha que ia acontecer? — perguntou Alesia, nada sutilmente virando a cabeça para os lados. Ninguém na praça de alimentação parecia especialmente suspeito, mas o que ela esperava? Homens em mantos, entrando montados em cavalos de fogo?

— Eu não sei — disse Lena. — Provavelmente ela ia fazer nós cinco sentarmos na mesma mesa, e ninguém teria um motivo muito bom pra ser contra isso. E aí os caras da capital que estão vindo encontrar os dois achariam que somos todos iguais. Mesmo se forem pacíficos, traumatizariam a Cella.

— Isso seria mal. — Alesia arregalou os olhos. — Muito mal.

— Sim. E se eles forem agressivos...

— O que você acha que vai acontecer, de verdade? — interrompeu Alesia. — Tudo bem, o cara atacou o Von, mas o Von também não foi um anjo. O que será que esses caras querem?

— No mínimo descobrir o que a gente quer. Talvez queiram nos convencer a dar o Livro pra eles.

— Não parece tão má ideia.

Lena não respondeu.

— Não acho que os caras vão fazer algo agressivo — disse Alesia, depois de algum tempo de silêncio — Quero dizer, combinaram o encontro no shopping. Aqui tem mais incredulidade do que em qualquer lugar. Aposto que não dá pra fazer nada aqui.

— Hm — Lena pressionou os lábios, tornando a boca uma linha fina. — É, você tá certa.

— Olha quem eu achei! — disse Cella, voltando a mesa. Alesia e Lena congelaram por um momento, sem ter ideia de como reagir, até que Alesia forçou um sorriso:

— Oi Trevor.

— Oi — disse Trevor, puxando uma cadeira e se sentando com elas.

— Que engraçado, né? — disse Cella, sentando-se também, sorrindo amavelmente. Se algum dos dois percebeu a estranheza nos olhares de Alesia e Lena, não deu nenhum sinal. Trevor parecia distraído, como era de seu feitio.

— Cella! — disse uma voz atrás deles.

— Ah! Nanda! — disse a garota. — Só um pouco, pessoal. — Ela se levantou e foi em direção a outro grupo de meninas, que elas conheciam de vista.

Alesia e Lena trocavam olhares. Alesia fez menção a falar sem emitir som, mas Lena reprovou, balançando a cabeça. Alesia entendeu. "Talvez eles nos ouçam, ou saibam que estamos fazendo algo." As duas jogavam olhares para Trevor, que tinha os olhos perigosamente próximos de onde Art e Von estavam. Alesia inclinou a cabeça na direção dele, sugerindo a Lena que deveria dizer algo, mas a garota arregalou os olhos e balançou a cabeça em negativa.

— Fiquem tranquilas — disse Trevor.

— Hã? — disse Alesia.

— Eu não vou fazer nenhuma besteira — disse Trevor, sem olhar para elas. Alesia e Lena trocaram olhares de novo, conversando entre expressões.

— Como assim, Trevor? — perguntou Lena.

— Eu não sei direito o que tá rolando, mas entendi que eu não deveria estar aqui. Fiquem tranquilas. — As duas ficaram tudo menos tranquilas. — Mas só confirmem, não é uma boa ideia eu ir agora lá falar com o Von, né?

Trevor olhou para as duas, rápido demais para que elas pudessem disfarçar o olhar. Obteve sua resposta.

— Ok. Mas que merda. Eu precisava contar um negócio importante pro Von.

Se Trevor tivesse dito aquilo sem aquela situação, sem mostrar entender alguma coisa, elas concluiriam que não era nada relevante. Qualquer assunto fora dos quatro era bobo, pequeno. Mas agora Alesia achou impossível segurar a pergunta:

— O que, Trevor?

Trevor suspirou.


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