O escuro existia só dentro dos prédios. Fora deles havia um céu azul marinho e uma lua grande, cujo brilho amarelado era suficiente apenas para dar uma ideia vaga do que havia ao redor. Era um espaço parecido com os Picos, mas em muitos aspectos inverso. Nos Picos havia um vento agradável, jovem; nos prédios o ar era seco e estagnado.
Era uma zona de guerra. As construções eram todas ou interminadas, sem acabamento, ou destruídas, os pedaços de concreto e aço se amontoando no chão de terra. Von caminhava cauteloso, sentindo-se um ponto minúsculo entre os prédios.
— Nada disso existe — ele sussurrava para si. — Nem isso aqui, nem o vermelho e negro, nem os Picos. Isso é só a minha consciência interpretando a estrutura mental de onde estou.
Se descobrisse onde estava, em qual parte de sua cabeça (ou da cabeça de Art?) era aquele lugar, conseguiria dar um jeito de sair. Aquele pensamento, por mais sem embasamento que fosse, era uma das únicas coisas que o mantinham caminhando.
E, quando saísse, Art não se livraria tão fácil dele.
Fazer fogo era um sacrifício imenso, tão custoso que algumas horas depois Von desistiu, criando fios finos de luz nos dedos. Mesmo o mais simples exigia muito dele, e isso o lembrou de como era antes.
Antes. A palavra fê-lo rir. Será que realmente se passaram anos desde aquele dia no lago? Depois da "morte" de Art ele parou de prestar atenção no dia e na noite, e pensando agora alguns dias pareceram incrivelmente longos. Seria o pesar mexendo com sua percepção? Ou algo menos psicológico e mais físico?
E os corpos deles? Devem ter achado que eles estavam mortos, destruídos pelos seus próprios caminhos. Os médicos não saberiam explicar, Lena teria um trauma horrível pelo resto da vida... Conseguia imaginar suas lágrimas, finas gotas escorrendo por um rosto horrorizado demais para ter qualquer expressão. Imaginou seus pais, irmãos, nos pais de Art, no grupo de estudos...
Será que Alesia choraria por ele? Via-a chorando por cima de seu olhar raivoso, seus gritos de razão... Pois esteve certa, não esteve? De um jeito ou de outro, aquilo acabou matando os dois. Se não literalmente, certamente em metáfora.
Alesia. Perdoaria ele em sua morte? Von lembrou da cozinha, depois da merda que fez, e como foi incapaz de dizer simples palavras. Agora nunca mais, será? Ela nunca saberia o quanto sentiu, o quanto se conteve, as noites que perdeu por isso. Nunca saberia o quanto as palavras dela pesaram, a ponto de fazê-lo desfazer a neblina naquela última manhã no lago. Era difícil admitir que sentia falta de alguém, principalmente depois dos seus "anos" de isolamento nos Picos, mas estaria mentindo se dissesse que não sentia falta de Alesia. Que não sentiu, nesse tempo todo em que mal foi capaz de olhá-la nos olhos.
Von fez uma curva numa esquina e apertou os olhos. Desfez a luz que saía dos dedos, abrindo e fechando a mão algumas vezes, e teve certeza. Bem distante, quase no limite do que via, havia um ponto de luz.
Pela primeira vez em horas (dias? Meses?) sorriu. Tentou correr, mas o terreno pedregoso não ajudava. Os pés já estavam cheios de cortes, e doíam a cada passo. Mas o que significava se machucar? Era só seu subconsciente, não era? Podia morrer ali? Por mais interessantes que fossem essas perguntas, a luz era mais.
Dezenas de postes se distribuíam, tortos, pelas várias ruas que saíam de uma praça circular. Ela estava no centro de um asterisco malfeito, a intersecção de todas as vias, e até onde Von conseguia dizer era o único lugar iluminado de toda aquela zona de guerra. A luz não era branca nem amarela, mas um tom cobre desagradável, que feria os olhos. No centro da praça havia uma elevação deformada de concreto, destruída como se uma manada de elefantes de aço tivesse passado por ali. Uma figura estava sentada num ponto alto, encolhida. Von segurou a respiração.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
