Sentiu-se vivo nos primeiros dias de suas férias, é claro que sentiu, mas nada se comparava àquilo. A capital dormia, e Art permeava seu silêncio.
Sentiu o peito apertar demais quando tentou voar e desistiu, mas não precisava disso: podia saltar três metros, cinco, dez até, e ver a cidade de cima. Saltou pelos prédios, sentindo o ar noturno passando através dele, e riu sem som. Atravessou o asfalto uma vez, caindo sentado num trem de metrô.
Sentiu o coração gelar, mas depois relaxou. Ninguém me vê. Ninguém me sente. Não há como a fé deles negar algo que não têm a mínima ideia.
Havia um grupo de executivos de terno, quase dormindo; um homem velho lendo um jornal; uma garota assustada, e um jovem com sono. Art observou-os todos, sentiu-os, viu seus pensamentos e adorou cada momento daquilo. Viu a cobiça do velho pela garota, ele desviando os olhos das páginas para o busto dela; viu a garota preocupada com o jovem ao seu lado, uma preocupação que se confundia em sua mente entre maternal e apaixonada; viu o jovem simplesmente pensando em dormir e em alguma loura que vira horas antes.
Art saltou, rindo, e caiu em prédios de apartamento. Procurou com certo afinco e viu mais meia dúzia de casais, e foi eles também, mas nenhum era tão especial quanto o primeiro. O primeiro ele nunca esqueceria. Saltou alto, cada vez mais alto, voando por cima dos prédios e rolando em telhados, sentindo-se algum tipo de super-herói. Quando sentia fome ignorava; quando sentia sede bebia o ar. Quando sentia a Consequência, assegurava-se, inabalável, que nada podia detê-lo. Era perigoso, mas era muito para uma mente jovem jogar fora.
Foi a várias lojas, e viu que conseguiria levar qualquer coisa. Todos os livros, os discos, as roupas; tudo que um dia quis, na distância de suas mãos. Mas, estranhamente, nada era tão atraente. Mesmo sem a ética que teve antes, de não fazer os vendedores simplesmente lhe darem coisas, não levou nada. Não quis.
Já eram quase cinco da madrugada quando finalmente cansou-se de observar pessoas e entrar em casas e decidiu voltar. Mas antes, uma última viagem. Viu o prédio mais alto da cidade, um monstro de concreto, vidro e estátuas, e subiu nele, escalando sua superfície como se fosse uma grande escada, saltando vinte em vinte metros, prendendo-se na parede vertical, e até caminhando nela. Chegou ao ápice e descansou. Expulsou o vento de sua volta, refletiu de volta a luz e voltou a ser, nu, no topo da cidade. Quase não conseguiu se manter em pé, apoiando-se no parapeito baixo do prédio. Seu corpo doía mil noites, seus olhos ardiam como se voltassem à vida e o suor preenchia cada centímetro de seu corpo. Sorria.
Sorria a felicidade do indescritível. Estava vivo. Viveria para sempre. O mundo era seu.
Sentiu-se amargo. O mundo era seu, pensou novamente. Era próximo demais do modo que pensara nos dias finais nos Picos, entre suas criações... Será que ele fez o certo? Fazia o certo? Em outra ocasião aquele pensamento teria destruído sua noite, mas ainda estava embriagado das emoções dos outros, cheio de adrenalina, e, simplesmente, feliz. Retomou o equilíbrio e apoiou um pé no parapeito, deixando as partes balançando com o vento. O sol era quase visível na distância, um mínimo arco de luz surgindo do horizonte.
Atrás dele, uma porta se abriu.
Art virou-se rápido, esquecendo-se totalmente da nudez, e encarou a figura que se juntava a ele no topo da cidade. Tentou ficar novamente invisível, mas não conseguiu. Tentou ficar imaterial, e seu coração doeu. Estava cansado demais. Relaxou. Era como mais um assaltante. Não faria mal.
— Quem é você? — disse uma voz masculina. Era escuro demais para distinguir feições, mas o homem era baixo e magro: num corpo-a-corpo não traria ameaça. Mesmo sentindo as dores, Art forçou-se a procurar nele, um truque fácil e rápido, e viu que não estava armado.
— Art — ele disse, a mente pesada incapaz de pensar em resposta melhor.
— O que você ficou fazendo esta noite, Art? — disse a figura, caminhando em sua direção.
Um raio frio percorreu Art. Toda sua falta de culpa, toda a sua coragem ante à Consequência, era baseada no fato de que ninguém nunca saberia. Se isso fosse mentira... Fez o homem dormir quase por reflexo, e viu o corpo dele desabar no chão, mole, ressonando. Teria resistido? Não, era sua imaginação.
Art olhou para os lados, tremendo, subitamente perdido e com medo. Tentou novamente ficar invisível, tentou com tanta força que sentiu uma lágrima escorrendo, mas tudo que conseguiu foi ficar mais nervoso. Não tinha como voltar; não tinha como descer dali sem levantar mil suspeitas e ser preso. Sua vida acabava ali. A noite morria em breve, e com o dia a descrença cairia sobre ele como mil espadas. O homem acordaria em breve, e... Caralho, o homem resistiu. O homem era como ele.
"Sua vida acabou? Caralho, sua paranoia não vê limite" riu Von, dentro de sua cabeça, como fizera milhares de vezes. Fazia tanto tempo, mas a memória ainda era vívida.
Art sentou no chão e clareou a mente. Procurou por palavras de incentivo de Merriam, mas nada havia sobre recriar sua fé. Procurou nos Picos e nas memórias que tinha deles, mas lá nunca faltou fé nem concentração. Pensou em Lena, seu ser sempre sereno, mas isso, de novo, o fez pensar nos Picos e em como possivelmente matou algo nela. Pensou em Von, com toda a sua calma e invejável habilidade, mas isso só o deixou com raiva.
Sentiu as lágrimas vindo, rastejando pelo seu rosto, ganhando força a cada memória que não chegava a lugar algum. Sentiu mãos frias alisando o corpo, rindo dele e tirando sua concentração. Uma noite ruim. Uma noite irresponsável e sua vida acabara.
Mas então permitiu-se pensar nos Picos. Nas suas torres. No que planejara, e por pouco, tão pouco...
O mundo era seu. Não tinha fé, mas fé era só metade. Precisava sair dali.
Meia hora depois Art estava de volta ao hotel, arfando, o corpo todo pesado e dolorido. Não conseguiria fazer nada por dias, imaginou. Quando tentasse fazer a mente levantar um dedo a Consequência o tomaria, da mesma forma que... Só de lembrar sentiu o jantar voltando. Pensou em como parara-a daquela vez, mas estava cansado demais para raciocinar.
Como último esforço consciente tentou subir ao último andar, ver a garota morena dormindo, ver se era realmente parecida com Alesia... Mas só de tentar a mente se apagou, e foi tomado por um sono sem pensamento.
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Obrigado pela leitura! Fique ligado, novas cenas serão publicadas todas as segundas, quartas e sextas-feiras. E se vocêficou impaciente e quer ler mais, dá uma olhada aqui: http://bit.ly/principiosdonada
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
