Capítulo 3: Os Picos (VI)

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Do preto veio o azul, e por um tempo foi tudo que houve. Um azul familiar, que eles deveriam estar associando a algo mas não conseguiam. Era muito homogêneo, constante, todos os pontos na mesma tonalidade esbranquiçada. Depois houve o vento, e sentiram a grama fazendo cócegas na nuca. Von arregalou os olhos e se sentou.

De início não compreendeu o que o cercava. Esperava ver o solo arenoso e as árvores grossas do lago, estar cercado por elas. Demorou para aceitar que estava em um ambiente completamente diverso. Ouviu Art levantando-se ao seu lado, e não precisou olhar para saber a cara que o amigo fazia.

Estavam sentados em um pequeno gramado circular, verde até seu limite, onde o chão caía. Havia uma única árvore próxima deles, baixa e retorcida, cheia de galhos bifurcados, copa esparsa. Diferente de todas as árvores que contornavam o lago.

— Onde a gente tá? — disse Art, e Von não soube responder.

Estavam no topo de um pico de pedra, plano e amplo. À volta deles havia outros, cilindros de diversos tamanhos, topos verdes, pedaços de vegetação prendendo-se corajosamente na superfície vertical.

— Não tenho ideia — respondeu Von, ainda olhando o ambiente. Os picos iam até onde a vista alcançava, e em alguns pontos o jovem viu um chão irregular abaixo deles, muito abaixo, que parecia ser uma floresta densa.

— Parece meio oriental — disse Art.

— Oriental?!

— É, os picos, a grama... Me faz pensar nas florestas do oriente.

— Como diabos a gente veio parar no outro lado do mundo?

— Como diabos a gente faz o que faz? — respondeu Art, dando de ombros. Von penteou o cabelo com a mão e não respondeu.

— Mesmo de avião a gente ia ter demorado horas...

— A gente deve ter teleportado — disse Art, levantando-se com ajuda de uma mão, coçando o queixo com a outra. — Não sei você, mas pra mim não se passou nem um segundo. A gente não desmaiou ou coisa assim.

— Teleportado? — Von imitou o gesto. — Você sabe teleportar?

— Não — respondeu Art, pensativo. — Mas se a gente conseguiu fazer uma vez por acidente conseguimos fazer de novo.

— Faz sentido. Bizarro a gente fazer algo tão complexo por acidente, e... Por que aqui?

— Não sei. — Art olhou para os lados, inquieto. — Não sei se vamos conseguir voltar hoje. Eu nem sei por onde começar a planejar a nossa volta, a tentar desenvolver teleporte... Vamos procurar algum abrigo antes que anoiteça. — Ele olhou para o céu, procurando pelo sol. Avistou-o baixo, quase tocando os picos mais distantes. Tentou tirar alguma conclusão com aquilo, pensando em fuso-horário, se não era pra ser noite no oriente, e só concluiu que não tinha ideia.

— Certo... Deve ter alguma caverna por aqui ou sei lá. Qualquer coisa a gente se vira.

Art caminhou na direção de um dos picos adjacentes, um mais alto, tão próximo que quase tocava aquele onde eles estavam.

— Eu vou escalar esse aqui e ver se vejo alguma coisa. Fica aí, daqui a pouco eu volto.

Von acenou, concordando.

Art subiu rápido, os vãos na pedra e a vegetação dando apoio o suficiente para uma escalada razoavelmente fácil. Von preocupou-se por um instante, estimando quão altos eram aqueles picos (cinquenta metros? Cem?), mas sabia que, na pior das hipóteses, faria uma cama de vento e o amigo só quebraria algumas costelas. Talvez pudesse fazer mais, se ninguém estivesse observando. Se ninguém...

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