— Tem certeza que isso é uma boa ideia? — disse Clara, quase calada pelo vento e pelas folhas. Dentro do bosque, a sensação de que a chuva estava vindo era ainda maior. As árvores agitavam-se como num terremoto, e os golpes súbitos do ar pareciam capazes de tirá-las do chão. As nuvens eram quase suficientes para apagar o dia, mas Trevor percebeu, olhando para trás, que a garota estava calma até demais.
Mas ninguém respondeu.
A reunião de quinta-feira do grupo de estudos foi a mais deprimente em toda a sua história. Dos dez, só quatro apareceram: Cella, Clara, Trevor e Tom. Na sexta, a situação se repetiu. No começo ficaram preocupados com os outros, mas, depois do episódio de quarta, era de se esperar que pelo menos Von não apareceria mais. Tentaram falar com eles, mas o único contato que conseguiram foi com os pais de Art, que disseram que o filho estava dormindo na casa do Von. Talvez eles estivessem dormindo na casa do lago, mas ninguém tinha o telefone de lá, e era longe demais para uma visita.
Trevor passou a tarde de sábado no campus com Cella, os dois fingindo estudar enquanto pensavam. Dias atrás Cella tinha sentido Lena em algum lugar do bosque, e eles concluíram que ela provavelmente tinha faltado aula (falando nisso, como que nenhum deles tinha notado a ausência dela? Mais uma pergunta inquietante entre as centenas que se acumulavam) enquanto cuidava do Livro. Onde ela esteve no bosque, entretanto, Cella não soube dizer, da mesma forma que não conseguiu explicar a Trevor como que soube que ela esteve por lá.
Tom surgiu no meio da tarde, mantendo-se quieto enquanto Trevor expunha suas inquietações. Alguns minutos depois eles estavam no bosque, depois de encontrar Clara no caminho. Era um tanto estranho ver alunos na universidade no final de semana, principalmente no começo de semestre, e eles não encontraram ninguém no caminho.
— Estamos numa parte isolada do bosque — disse Tom, finalmente respondendo ao comentário de Clara. — Poucos vêm aqui. É um ótimo lugar pra esconder o que quer que seja.
— Mais motivo para sermos cautelosos — disse Clara. Trevor estava com a mente muito cheia para notar minúcias, mas percebeu quão séria ela estava. Uma seriedade estranha, profissional. Olhou para Cella, perguntando com os olhos se ela tinha notado, e a garota só deu de ombros, um pouco nervosa.
Trevor conhecia o bosque do campus relativamente bem, mas vinte minutos dentro dele e todas as árvores se tornavam iguais, e as trilhas dependiam de considerável imaginação. Tom tinha algo no olhar que sugeria saber perfeitamente onde estava, mas, se realmente sabia, não deu ao trabalho de mencionar.
Uma lufada súbita de vento varreu o bosque, arremessando folhas nas cabeças e gravetos nas pernas deles. Clara tentou segurar o cabelo, mas antes que pudesse ele já estava voando e cobrindo seu rosto, da mesma forma que o de Cella. Tom arregalou os olhos, erguendo uma mão. Trevor segurou os óculos, desviando de alguns galhos que se dobraram, cedendo ao vento.
O vento parou, mas os galhos continuaram dobrados.
— Olha só que engraçado pessoal... — disse Trevor, parando ao se virar. O cabelo das garotas continuava erguido, hasteado como uma bandeira. Algumas folhas flutuavam à volta delas.
— Ei, Tom... — disse Trevor, se aproximando do amigo. Tom parecia normal, mas logo viu que ele não respirava.
Olhou para os lados, vendo os galhos dobrados, o cabelo das garotas, as folhas flutuando... Sentiu-se dentro de uma fotografia.
— E aí Trevor — disse Von, saindo de trás de uma árvore. — O bosque, é isso? O que você tá fazendo aqui? — Viu os outros, estáticos. — O que vocês tão fazendo aqui?
Trevor piscou algumas vezes antes de falar.
— Que porra é essa, Von? O que aconteceu com eles? De onde você saiu?
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
