Capítulo 5: Os Mantos da Capital (IV)

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As nuvens carregadas lembraram Art de que o outono estava caminhando ao seu fim. Os finais de tarde adquiriam um tom pesado, denso, o vento forte criando a sensação de que algo estava prestes a acontecer. Algo ruim. Art ficava levemente perturbado ao perceber o quanto gostava daquela emoção.

A rua estava deserta como em todas as tardes de infância, mas os prédios eram diferentes. Art não cruzava aquela rua sozinho há anos, e a caminhada pareceu muito menor. Observava as árvores velhas e uma parte dele era preenchida de nostalgia, lembrando-se dos tempos áureos onde era um garoto ambicioso e o mundo podia ser dele. Ele riu. Certas coisas não mudavam.

O braço doía, e, olhando para ele, viu que sangue pingava de novo, deixando um rastro rubro no asfalto. Soltou um grunhido de irritação, sem paciência para fazer outro curativo. Ninguém o observava. Sem parar de andar, apanhou um punhado de terra de um terreno próximo. Apertou-o na mão, consumindo-o até desaparecer. Era arriscado, mas mais sangue precisava vir de algum lugar. Nos últimos dias perdera baldes dele.

O jardim da casa estava mais malcuidado do que se lembrava. Não havia carro na garagem, embora um fio de luz escapasse por entre as cortinas. De todos os lugares que Von iria, seja para procurá-lo ou não, a própria casa não devia estar na lista. Os pais do amigo também não pareciam estar lá; todo o loteamento era morto, como se Art estivesse visitando a própria memória, apagada e vazia.

Art deitou-se no gramado em frente à casa e relaxou. Sentia-se cansado. O que havia na mente de Von era muito, mas muito mais complexo do que jamais sonhara. Era uma obra belíssima, orgânica... Não parecia nem feita por homens. No começo aquilo o assustou, mas depois o medo foi suprimido pela admiração. Se Seh era capaz de fazer aquilo, imagine o que mais? Estava fazendo o certo.

Sentou-se na grama e observou. Tão cansado. Pelo que ouviu na sacada enquanto fingia dormir, na conversa de Alesia e Von, Seh realmente foi encontrar Von antes do Livro surgir. Há uma semana, naquele jardim. Art fechou os olhos e se concentrou, sentindo o vento nas folhas, nas paredes, o caminho das partículas que estudou tanto... Era engraçado como a Física moderna chegava perto, tão perto, mas ainda não conseguia realmente compreender.

— Ou a posição ou a velocidade; nunca os dois — dissera algum professor seu. Sentindo o ar, via ambos.

— Pra dois corpos temos a solução sempre. Agora com três ou mais o problema fica mais complicado... — dissera outro. Sendo o ar, via como era simples. Tocava as partículas e entendia-as todas, entendia de onde vieram, como estavam segundos, horas, dias antes. O ar, a luz...

Art ficou imóvel por uma boa meia hora. Ver o passado era uma de suas maiores criações. Seu cérebro era um computador, numa simulação de Física tão complexa que cientistas provavelmente enfartariam se soubessem que aquilo era possível. Exercitara sua técnica várias vezes nos últimos dias, para ver Von na livraria Lima, para seguir o Seh de segunda-feira e encontrar o apartamento de Henderson... Uma semana era bastante tempo para voltar, embora, da última vez, logo antes de pedir a ajuda de Alesia para entrar no apartamento, tivesse voltado muito mais. Quase acabou mal, ele pensou, sentindo o sangue do braço se acumular na grama. Mas preciso saber.

Finalmente as imagens surgiram, projetadas diretamente em seu nervo óptico. Von e Seh, meio translúcidos, azulados, flutuando à sua frente e conversando.

— Aconteça o que acontecer amanhã... — disse Seh, domingo passado. — Mantenha a calma. Não seja apressado.

Ele sabia. Mesmo prevendo que Seh saberia, a confirmação ainda impressionou Art. O resto, por enquanto, era inútil. Acelerou os dois, e viu Von entrar em casa e Seh ir embora. Levantou-se e olhou para a rua, onde a imagem passada de Seh caminhava... Até que parou. Fez meia volta.

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