Capítulo 3: Os Picos (XII)

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Três meses depois estava completo. Seriam mesmo três? O tempo era estranho. Von tinha a impressão de que ficara acordado por vinte horas seguidas fazendo os ajustes finais, mas o sol continuava alto no céu.

Ele limpou o suor da testa e observou. Era lindo. A pintura vermelha metálica, brilhando, impecável... Foi incrivelmente difícil construí-lo, não por ter que transformar uma quantidade tão grande de terra em alumínio, mas por não saber como aquela máquina funcionava.

A melhor teoria que tinham para entender como Art conseguiu fazer uma câmera fotográfica era que, em sua distração, ele não percebeu que não sabia como fazer uma. Por um instante teve completa fé de que seria capaz, como tinha enquanto criava livros, cadeiras, lâmpadas e outras coisas cujo funcionamento entendia. As palavras de Merriam ecoaram pelas mentes dos dois: "fé e força de vontade. O resto é detalhe".

Mas uma coisa era fazer uma câmera por distração, outra era se convencer de que era capaz de fazer um avião.

Só que tinham um precedente. Se Art conseguiu uma vez, era possível. Se era possível, eles conseguiriam. Trabalharam pesado tentando reproduzir o feito, até que, em dois dias de concentração intensa, Von fez uma calculadora.

Fizeram várias coisas menores depois, explorando os limites daquele método. Televisores, videocassetes, sistemas de som, e até refizeram o carro de Art. Moldaram rádios e antenas parabólicas, mas tudo que conseguiram tirar deles foi estática.

O avião era muito mais complexo do que todas aquelas máquinas, mas agora estava lá na frente dele, do lado da enorme cratera de terra de onde tiraram todo o material.

— Ei, Von. — Art caiu ao seu lado, vindo do topo de algum dos picos. Sua queda foi graciosa, leve. — Você ainda tá aqui trabalhando nele? Pensei que tinha ido procurar informações de como voar.

— Eu tô procurando — disse Von, tirando um pano do ar e limpando o suor do corpo. Fazia isso com tanta facilidade que não surpreendia nenhum dos dois. — Uma parte de mim tá ocupada transcrevendo tudo que já ouvi sobre aviões e como pilotá-los numa salinha do forte, o resto tá aqui.

Art ficou totalmente estático, os olhos ou tranquilos ou incapazes de expressar tamanha surpresa.

— Ah — ele disse, olhando para o avião. — E aí, descobriu alguma coisa?

— Meu avô me falou umas coisas quando eu era pequeno, tem os filmes que vi... Tenho uma noção, mas não sei se vou aprender muito mais pelas minhas memórias. De qualquer forma, tô extraindo e escrevendo tudo. E você, algum sucesso?

Quando perceberam que não saberiam pilotar o avião, Art sugeriu que quem sabe ele conseguisse arranjar o conhecimento. Criar o conhecimento, talvez. Era a coisa mais audaciosa que já tinham planejado, e os dois ficaram receosos imaginando se era possível.

— Não consegui. É, seria conveniente demais se eu conseguisse me ensinar a pilotar um avião — disse Art, para o alívio dos dois. — Imagina! Eu podia usar isso pra aprender qualquer coisa, inclusive novos efeitos, e teria todo o conhecimento existente e não existente num piscar de olhos — ele explicou, nervoso. Se alguém fosse capaz de fazer aquilo, a realidade seria muito, mas muito mais incompreensível do que eles imaginavam.

— Mas e aquilo que eu sugeri, de buscar em algum lugar? Muita gente no mundo sabe pilotar um avião. A gente não estaria criando conhecimento.

— Experimentei com isso também, mas não encontrei nada. O máximo que achei eram coisas que você sabia. Talvez estejamos longe demais da civilização.

Von concordou. Pensou em perguntar qual seria o alcance da procura de Art, mas saber a extensão daquele tipo de coisa era, sendo gentil, uma arte inexata. Ele voltou os olhos para o pequeno avião, e Art o acompanhou.

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