A fogueira estalava na noite, pequena em comparação com o fogo no horizonte. O que mais intensamente queimava, no entanto, era o olhar de Von. Estava sentado, os braços atrás da cintura, e não parecia ver as chamas. Não via.
Quatro dias no ar. Sem eufemismo: noventa e seis horas. Ele checara todos os equipamentos, estava tudo certo. Velocidade de cruzeiro de quatrocentos quilômetros por hora. Escrevera os dados no papel, e Art não quis acreditar.
— A gente tá andando em círculos, tem que ser. O vento tá nos empurrando — dissera Art, de pé, segurando o manche.
Quatro dias. Depois que o combustível reserva acabou começaram a transformar os objetos — as garrafas, o carpete, os bancos, as redes, as roupas — em mais. Certos pontos da lataria interna já eram mais finos. Tentaram transformar o ar em combustível, mas não era suficiente.
— Não, Art, não pode ser — refutara Von, sacudindo um papel na mão, cheio de cálculos. — A gente percorreu quase quarenta mil quilômetros. Isso é tipo uma volta ao mundo. Ou a gente tá fazendo uma curva absurda ou a gente já se afastou o suficiente pra cruzar um continente. Eu fiz umas curvas de correção, não pode ser só o vento. Tem algo errado.
Art não respondera.
Quatro dias no ar e a paisagem não mudou. Os Picos, as árvores... Um ou outro eventual rio, quase invisível entre a vegetação densa. No segundo dia Von suspeitou que já tinha visto um pico específico antes. No terceiro teve certeza.
O marcador de combustível já estava encostado no fundo há um tempo considerável quando o motor começou a engasgar.
— Estamos ficando sem combustível. Precisamos dar o fora daqui — dissera Art, olhos no horizonte.
Von havia feito um par de paraquedas para emergências. Planejavam pousar o avião no primeiro aeroporto que encontrassem, ou jogá-lo no mar, e, com esses planos perfeitamente bolados, fazer paraquedas parecera uma ideia prudente.
Von caminhou até o fundo do avião, desfazendo a folha com seus cálculos em mais combustível, e percebeu que não havia mais nada ali. Estavam os dois completamente sozinhos, seminus, dentro do cilindro metálico.
— Art — dissera Von, com muita calma. A porta já havia virado combustível há horas, e ele teve que levantar a voz para ser ouvido. — Onde você colocou os paraquedas?
— Hã? Você fez paraquedas? — dissera Art, ainda pilotando o avião, de pé. Os bancos foram a primeira coisa a ser transformada em combustível.
— Fiz.
— Tem certeza?
— Caralho, Art, tenho! Cadê eles?
— Eu não vi nenhum paraquedas!
Art podia pirar em situações de estresse, mas não era burro. Saberia diferenciar um paraquedas de qualquer outra coisa. Nunca destruiria eles, principalmente na situação tensa que se viram a primeira vez que o combustível começou a acabar.
— Merda, será que eu esqueci?
— Faz uns agora, então!
Von tirara mais um pouco da lataria e sentiu o avião dançar no ar. Não sabia como um avião funcionava, não sabia quais partes podiam sair. Se enfraquecesse um componente crítico, quem sabe o veículo explodiria, ou giraria pelo céu, lançando-os para fora. Estava fora de questão tirar mais material dele.
— Von! Faz uns agora!
— Com o que? Não temos material!
O motor engasgara e não voltou à vida. Sentiram a perda de altitude imediatamente.
— Então faz um pouco! — gritara Art, tentando manter algum controle. Havia só os picos abaixo deles. Sem chance de uma aterrissagem segura. Von nunca tentara voar, e no desespero até tentou: tudo que conseguiu foi se sentir um pouco mais leve. Não tinham tempo para aprender aquilo, e nenhuma fé de que funcionaria.
Von hesitara então, olhando à volta... Sem achar nada. Não havia material para fazer paraquedas, nem para um guarda-chuva. Eles assumiram que achariam algum lugar para pousar, qualquer coisa que não fosse os Picos era factível. Como ele esqueceu dos paraquedas?
"Foco, fé, força de vontade. A falta de uma dessas é a única coisa te impedindo de dobrar o Universo."
Fácil falar, Merriam da minha cabeça, pensara Von, as palavras ecoando, pulsando quase tão intensamente quanto o sangue que parecia querer explodir para fora do corpo do jovem.
Para sair dali precisava criar matéria. Era a única possibilidade. Criar do nada! Gerar energia! Tudo que o curso de Física dizia que era impossível!
Iriam morrer.
— Vai lá Von! Eu não sou bom nisso, tem que ser você! — dissera Art, saindo do manche e caminhando até a abertura na lataria, onde antes estivera a porta. Sem o motor, o som forte do vento preenchia completamente a audição deles. — Von!
— CALA A BOCA!
Era isso. O fim de sua vida, sabe-se lá onde. Zero chance de sobrevivência.
As palavras de Merriam corriam por sua mente como velhos mantras. Será que ele imaginou que os dois chegariam naquele nível algum dia? Capazes de fazer um avião, só para morrer nele? Fé, força de vontade, foco. Dobrar o Universo.
Fizera fogo com as próprias mãos. No primeiro dia fizera um peixe, e em poucos meses fizera uma fortaleza. Construíra um avião, sem ter ideia de como se fazia isso. Destruíra um pico com mais de cem metros de altura.
Von sacudiu a cabeça violentamente. Coçou os olhos com as palmas das mãos. O avião acelerava assustadoramente, mais que as batidas de seu coração.
O ano fora longo. Von percebia aos poucos quanto ele havia mudado, quanto todas as suas concepções de vida foram ao chão quando Merriam veio. Tinha grandes coisas pela frente. A vida era vasta. Ainda tinha tanto a fazer, tanto a dizer... tanto a se desculpar.
Ok. Paraquedas.
Sentado na fogueira, Von não soube dizer como fez aquilo. Teve um momento de claridade — uma epifania, podemos chamar assim — e quando viu tinha um par de mochilas nas mãos. Não mochilas: paraquedas.
Deu um para Art, colocou o outro nas costas, e saltou. Quando olhou para trás, não viu o amigo com ele. Viu o amigo só poucos minutos atrás, depois de chegar no que restou do avião. No que restou do amigo.
Lidar com a morte foi estranho. Antes daquilo ele poderia jurar, embora não iria admitir, que choraria, que vomitaria ao ver os órgãos ao chão como algum churrasco. Que ficaria em choque ao ver que Art, que conhecia desde os seus sete anos, era agora... Uma pilha de ossos, músculos e sangue.
Com Art, morreu algo em Von. Estava em choque? Era aquela a sensação? Nenhuma lágrima caiu. Sentia o estômago como uma bola de mercúrio frio, mas olhar para o sangue não trazia nenhuma ânsia. Sentiu-se um estranho dentro da própria vida, vendo suas decisões e ações passadas com curiosidade mórbida.
Não se movera pelo que pareceram horas, e só saiu dali quando as chamas do avião começaram a queimar sua pele. Podia ter tentado fazer do chão água, para amortecer a queda do avião... Não, era difícil demais, principalmente à distância. Podia ter feito o avião continuar voando... Mais difícil ainda.
Será que entregou o paraquedas? Sim, encontrou os restos dele no avião, junto com o cadáver. Será que o Art ficou preso em algo? Como que não conseguira escapar? Art era poderoso! Como...
Não adiantava pensar nisso. Art estava morto, e nada do que fizesse mudaria isso. Esqueceu-se totalmente de como viajaram por dias sem sair dos Picos, e de como ainda não tinha ideia de onde estava. Dormiu no chão, sem temer qualquer coisa que aparecesse. Incapaz de temer.
Uma única lágrima escorreu pela face de Alesia, que se remexeu na cama,grunhindo. O apartamento era silêncio e escuridão.
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Obrigado pela leitura! Fique ligado, novas cenas serão publicadas todas as segundas, quartas e sextas-feiras. E se você ficou impaciente e quer ler mais, dá uma olhada aqui: http://bit.ly/principiosdonada
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Princípios do Nada
Misteri / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
