Capítulo 12: Profecia (II)

12 1 2
                                        

— Trevor.

A voz o despertou. Estava deitado de costas, Cella caída em cima dele. Tentou erguer a garota, mas não conseguia nem se sentar. Lembrou-se que conseguia levantá-la sem os braços, e, com grande esforço, fê-la flutuar até uma árvore próxima, deitando-a na grama. Ela tremia, mas parecia inconsciente.

— Trevor — repetiu Jo.

Jo estava de pé alguns passos adiante, abraçando a si mesma. Antes, no supermercado, ela parecia tão confiante. Tão cheia de si. Agora parecia uma menininha.

— O que aconteceu? — disse Trevor.

— Eu não sei. Seu amigo Art fez um negócio que eu nunca vi, e nem entendi. Eu também apaguei. Vamos ver se ele ainda tá lá.

Trevor franziu o cenho. Por que ela precisava que dele? A resposta estava nos braços trêmulos, nos olhos tensos, no corpo encolhido. Jo não queria ir sozinha.

Levantou-se devagar, assegurando-se que Cella estava bem, e caminhou com Jo. Havia uma construção ali, uma pequena muralha velha, circular, em ruínas. Penetrando o círculo, não viram ninguém de pé. Não viram ninguém vivo. O ar estava cheio de um cheiro estranho, peculiar. Um cheiro que ele só aprendeu a reconhecer poucas horas antes, quando viu os cadáveres no bosque.

Trevor expirou, olhando o chão, e o ar não voltou aos pulmões. O corpo todo ficou tenso, gelado, causando um desconforto físico que, em outras circunstâncias, teria feito ele se encolher. Mas não se encolheu. Não se moveu. O coração acelerado, rápido como uma bala, era o único sinal de que estava vivo. Os olhos doíam do tempo sem piscar. A imagem que via era desfocada, mas ainda inequívoca. Real.

— Aquele... Aquele é o Von?

Trevor tirou os olhos do retrato de branco, negro e vermelho. Se encontrasse o que esperava encontrar seria demais para ele. Iria destruí-lo, mais do que a primeira visão já destruíra. Seus olhos se moviam com dificuldade, já ajustados ao escuro, percorrendo o terreno devagar...

Seu primeiro reflexo foi achar que sim: que era. Lá estava seu amigo Von, caído, olhos sem vida. Sentiu o coração apertar, mas, olhando melhor, sentiu um microscópico alívio.

— Esse é o Rocan — disse Trevor, assustando-se com o som da própria voz. — Não é...

Não conseguiu continuar. Quando deu por si estava sentado no chão, ao lado do que vira antes.

— Lena — sussurrou, colocando a mão na testa do que restava da amiga. Estava fria. Estava úmida. Ou era ele que estava úmido?

Trevor sequer conseguiu ter uma reação decente. Sentia os lábios separados, os olhos escorrendo, mas não havia mais nada. Era uma estátua. Ficou daquele jeito por tanto tempo que não sentia mais as pernas.

— Escuta...

A voz de Jo veio de trás. Ainda estava lá? Não era importante. Continuou:

— Eu... Me desculpa. Não quero que você pense pouco de Cennen ou de Gaen por causa disso. É coisa minha, ok? Só minha. Não é de ninguém mais. Não culpe os outros. — Trevor tentou se virar para ela, mas o pescoço não obedeceu. Tentou falar, mas os lábios se limitaram a tremer. Queria vomitar, mas nem isso conseguia. O cheiro de sangue, os restos, o rosto pálido... A expressão de Lena era a única coisa pacífica na situação. A única coisa pacífica na vida inteira dele.

Jo chegou mais perto. Segurava um livro nos braços. O Livro. Não importava.

— Me desculpa. Não posso fazer nada. E lembra do que eu disse sobre Cennen e Gaen. Eu...

Ela não continuou. Logo não estava mais lá.

Trevor não tirou os olhos de Lena. Os óculos embaçaram, o corpo sumiu, e a mente ficou branca. Ignorou completamente os passos indo até ele.

— Trevor — disse Tom, em algum lugar atrás. — Eu... Eu não pude fazer nada. Me desculpa. — Eram mais palavras do que ele estava acostumado a ouvir do amigo, e isso chamou sua atenção. Virou a cabeça para ele, como para se certificar que era realmente Tom. Mesmo no escuro, mesmo com os óculos embaçados, não era uma figura que se podia confundir.

— Você viu?

— Não. Eu... Acordei tarde esta madrugada. Acordei pensando nela. Depois percebi que tinha algo de errado, que mexeram com o Livro... Tive que vir andando, e vi as luzes, ouvi os gritos... Eu... — Aquele era um silêncio duro demais, até mesmo para Thomas. — É melhor a Cella sair do Bosque. Eu cuido dela por enquanto. Tome... Tome o seu tempo.

Cella ainda estava lá. O pensamento era quase o suficiente para fazer Trevor se erguer, mas não era. Nada era, por um bom tempo. Tom deu alguns passos hesitantes na direção dele, e colocou uma mão em seu ombro.

— Eu sinto muito. Eu também... Isso... — E parou mais uma vez. Havia algo estranho no jeito que falava, um tremor em sua voz. Algo que quase o fazia diferente do Tom que Trevor conhecia tão bem. Ele estalou os lábios e continuou. — Hoje foi um dia ruim. Eu sinto muito. Tome o tempo que quiser. Não se preocupa com a Cella.

E ele se foi, tão súbito quanto veio. Trevor só observou.

Ninguém próximo a Trevor tinha morrido antes. Houvera seu avô, sim, mas na época ele mal tinha cinco anos. Nunca lidara com a morte daquela forma: tão explícita, tão crua e molhada. Súbita como um raio céu aberto. Não conseguia nem chorar direito, ficava ali com os joelhos afundando na grama, os olhos escorrendo, como um chafariz vivo. Um chafariz que sabia que estava vivo, mas com certeza não se sentia assim.

Trevor imaginou que Art ou Von podiam morrer. Mesmo sem admitir completamente, sabia que os dois estavam fazendo besteira e que possivelmente iam se dar mal. Mas nunca imaginara aquele destino para Lena.

A quieta. A garota do pequeno sorriso. Acompanhando-os como sombra, invisível, falando baixo. Ela nunca fizera mal a ninguém, e, vendo-a agora... Aquela crueldade era tão surreal, sublime, grotesca, maligna. Aquela que uma vez fora uma flor inocente era agora aquele monte de pele e sangue, uma boneca sem vida. Algo em Trevor se desfazia, morria, amadurecia, chame como quiser. Algo nele não era mais.

Trevor começou seu caminho de volta. Não havia nada para se pensar. Tom estava ali perto, aguardando do lado de uma Cella ainda inconsciente. Mas havia outra pessoa.

— Eu fiquei presa, não consegui vir. Eu sei que não é profissional de minha parte, mas... — A voz era familiar, mas devia ser coincidência. O que a Clara estaria fazendo ali? — Eu preciso perguntar. O que aconteceu aqui? Você sabe, não sabe? Pela primeira vez eu não sei, você observou e eu não. Eu sei que não é profissional, mas eu... Por favor, eu preciso saber.

— O que aconteceu aqui não nos diz respeito. Não é coisa da Universidade — disse Tom. Sua voz tremia. Frio?

— Mas aconteceu na Universidade. Diz respeito a nós sim.

— Isso não aconteceu por causa de algo aqui dentro. Vai ter consequência, mas... Eu nem tenho ideia do que pode ser. Podemos pesquisar juntos. Entender juntos.

— Você sabe que isso não pode acontecer — disse Clara. — Apesar de que... Eu não sei mais.

Trevor aproximou-se dos dois, que se calaram com sua presença.

— Vamos dar o fora daqui.


-----------

Obrigado pela leitura! Novas cenas todas as segundas, quartas e sextas-feiras. Se curtiu, vote e deixe um comentário! E se quiser conhecer mais do meu trabalho de escrita, dá uma olhada no http://oucoisaparecida.com.br/

Princípios do NadaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora