Era um tanto estranho ver as ruas do centro tão desertas. Mesmo numa segunda de madrugada, o centro era o centro. Andando por ali num dia comum ele com certeza teria visto meia dúzia de pessoas, algumas sentadas pelos bares sempre abertos, outras vagando, mãos nos bolsos e olhos rápidos. Mas, em sua curta caminhada, ninguém parou para lhe pedir um cigarro ou uma bebida.
Seh sempre imaginou que toda a sorte de coisas interessantes acontecia no centro. Gostava de pensar que, se algum dia algo muito inacreditável acontecesse na cidade, o centro seria seu palco central. Agora, na noite mais interessante da história do município, o centro era silêncio e paz. Mas Lerseh não pensava nisso enquanto caminhava. Aquele tipo de pensamento só vinha na era antes de Henderson.
— Desta vez foi rápido. Da última você demorou seis meses — disse Henderson, a voz cruzando uma esquina.
— Da última vez eu não te conhecia.
Henderson estava sentado de pernas cruzadas num banco de pedra que era, tanto geográfica quanto emocionalmente, o centro do centro. Seh caminhou até ele e se sentou ao seu lado.
— Bom lugar. Está observando o espetáculo?
— Tá bem interessante. As coisas tomaram rumos estranhos. Eu nunca iria imaginar que a Lena...
— Escuta, Henderson — Seh interrompeu —, isto é idiota. Precisamos conversar. Vamos pro meu espaço?
Henderson coçou o espesso cabelo avermelhado, uma careta de dor e vergonha.
— Vamos. Isto é realmente desnecessário.
Um segundo depois estavam os dois no branco que Seh fizera para ele. Ninguém os incomodaria, a não ser que fosse convocado pelo mestre o espaço. Lá havia quietude e privacidade, e até que não era um mau lugar para observar os acontecimentos.
— Antes de qualquer coisa — começou Henderson —, a gente tava errado. Bem errado.
— Sobre o quê?
— Deixa eu te mostrar.
O branco se iluminou como uma tela de cinema, preenchido pelas imagens que Henderson roubou de Art. As cenas corriam tão rápido que pareciam só borrões pretos; o som veio tão depressa que o ouvido humano não conseguiria captar. Mas Seh absorveu tudo.
As imagens pararam, e o branco ficou em silêncio. Seh ainda olhava fixamente para um ponto no nada, onde há pouco vira o embate de Art e Von nos Picos. Henderson limpou a garganta, sem efeito. Sentiu o cheiro do fumo de Geards no ar, e em outras circunstâncias teria reclamado que Lerseh fumou sem ele, mas agora achou mais prudente deixá-lo pensar. Era muita coisa para engolir.
— Isso foi... — disse Seh, olhos arregalados. — ...Inusitado.
— É o melhor que você tem a dizer? — disse Henderson, sugerindo um sorriso.
— Depois de algumas eras você perde a sensibilidade pro inusitado. Já vi tanta coisa surpreendente que "impossível" é, pra mim, uma palavra tão forte quanto "sorvete".
— Ah, qual é. — Henderson franziu o cenho. — Isso é impossível o suficiente pra ter nos enganado. Pra nos fazer achar que eles eram como nós! É no mínimo um pouco mais do que inusitado.
— É, pode ser. Mas as técnicas que Merriam ensinou pra eles eram peculiares. Você sabe o que eu acho. Talvez só por eu ter crescido perto de Art e Lena algo de mim tenha passado para eles... O talento, o potencial...
— Eu sou cético. Merriam era muito amador, muito preso nas fórmulas. Não teria ensinado nada experimental para eles, nada que pudesse mexer com esse "potencial" que eles teriam só por terem crescido com você.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
