Capítulo 3: Os Picos (VII)

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Cella mordeu a língua enquanto mastigava, e a dor trouxe-a de volta ao presente. Ela riu, dolorida. Isso é o tipo de coisa que o Trevor faria, imaginou. Já o vira na mesma posição que ela estava agora meia dúzia de vezes, sentado sozinho, fingindo fazer outra coisa (ler, comer) enquanto observava as pessoas. Só de pensar nisso ela imaginou... ela soube como Trevor se sentia enquanto olhava. Não o que se passava pela cabeça dele, mas as sensações, emoções. Um distanciamento, um toque de melancolia, uma curiosidade, um sentimento de grandeza...

Sabia tão bem que só de lembrar sentiu-se como ele se sentiria, a cabeça leve, fora da realidade. Como eu sei disso?, ela pensou. Não vinha de nenhuma análise lógica. Certo dia ela simplesmente viu Trevor em seu ofício de solidão e sentiu o mesmo que ele. Fez isso por anos. Olhava as pessoas e entendia. Sentia.

Mas isso fazia tempo. Cella imaginou que era algum tipo de percepção infantil que tinha, uma dessas visões de mundo que temos enquanto crianças que simplesmente desaparecem quando amadurecemos. Uma habilidade que ela acreditou ter, seu próprio talento... Era até natural a ela, algo que demorou para perceber que nem todos tinham.

Quando cresceu aquilo sumiu, junto com várias outras percepções. No começo aquilo a assustou, a falta de algo que era só dela, mas foi aos pontos se tornando só memória. Ficava inquieta quando imaginava que podia ter sido só fruto da sua imaginação de criança, mas era a conclusão lógica. Na época fora tão real... Lembrava-se de como olhara para todos e sabia quem precisava de ajuda, e como isso foi importante para solidificar a maioria das amizades que eram preciosas para ela. Nunca deixara aquela habilidade clara, fingira-se de tonta, e acreditava que os amigos (principalmente o grupo de estudos) atribuíam aquilo a algum tipo de intuição feminina.

Foi na faculdade que a percepção sumira. Acordou um dia e não foi capaz de dizer se os pais tiveram uma boa noite de sono, se os amigos tinham passado um bom final de semana, se Alesia continuava melhorando. Até o que estava sentindo naquele momento, a emoção que captara um dia só por estar perto de Trevor... Era real? Não era só algo que ela havia inventado?

— Cella? Você tá bem? — disse Clara. Cella demorou um segundo para ver a amiga. Sentiu sua preocupação, sua inquietação, e vários detalhes que ela tentava interpretar.

— Sim. — Ela sorriu seu melhor sorriso calmante, mas soube dizer de imediato que não foi convincente.

— Você tá meio distante — disse Clara, tomando um gole de suco. Seu prato estava quase vazio, enquanto Cella mal havia tocado em sua comida. — Desde a reunião.

— A reunião foi muito esquisita. — Naquela manhã Cella olhou para os amigos e voltou a ter dezesseis anos, e ver neles, sentir neles, tudo que um dia fez parte de seu cotidiano. Entendeu toda aquela confusão emocional, mas estava tão desacostumada que não soube lidar. Focou os esforços em não enlouquecer com aquele estímulo, e uma parte dela entendeu perfeitamente tudo aquilo que diziam sobre autismo.

— É, eu sei... — disse Clara, baixando os olhos.

Ela quer conversar a respeito, mas não sabe como. Reconhecia aquela emoção. A insegurança de Clara, o medo de ser rejeitada pelo grupo de estudos. Ela era realmente muito diferente deles, principalmente do trio Art-Alesia-Von, mas Cella achava que nenhum deles pensava pouco dela. Até aquela manhã sabia por intuição, e por conhecer os amigos; mas depois teve dúvidas. Sua cabeça doía.

— Desculpa Clara, mas eu tô meio esquisita hoje. Não tô muito legal — ela disse, levantando-se. Clara observou com triste surpresa. — Não se preocupa, não é nada com você. Eu só preciso de um tempo sozinha. Amanhã nos falamos na reunião, ok? — Ela sorriu, e se retirou da mesa.

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