Formatura

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A sacada se encheu de música quando a porta se abriu, iluminada momentaneamente pela luz vermelha do andar de cima, mas quando ela voltou ao lugar houve só a noite. Só o silêncio e a solidão. Aquele era um ótimo lugar para escapar da festa. Art afrouxou a gravata e caminhou em direção ao parapeito, olhando os convidados entrando. A noite estava só começando.

Ainda não tinha visto quase ninguém. Vira Tom num canto, bebendo, uma garota tagarelando em seu ouvido, e talvez tenha visto Trevor por aí. Ah sim, viu Cella logo no começo, com o vestido amarelo. Estava bonita. E nem sinal de Alesia.

Aquele tipo de festa tinha em Art o efeito contrário do que parecia ter nas outras pessoas. Ele ficava pensativo, retraído, talvez tímido, talvez introspectivo. Se Von estivesse ali aquilo passaria, e os dois festejariam juntos, puxando conversa com algum grupo de desconhecidos, se intrometendo nos papos dos outros, bolando novas danças... Mas sozinho Art fitava a bebida e pensava na vida. Também não vira Von, mas tinha certeza que veria. Se encontrariam em algum lugar, e conversariam uma conversa séria. Art tinha a mente cheia.

Ele tinha feito um plano tão bom. Previra todos os movimentos dela, quando a chamaria, como seria depois... Aquele era seu último momento. Sua chance final. Não tinha nada a perder.

Mal se lembrava da colação de grau, horas antes. A escola organizou os alunos em ordem alfabética, então o grupo se separou, menos ele e Alesia. Ali falaria com ela, ninguém podia interferir. Teria dado certo. Ela previu a situação, era a única explicação. Ela sabia, e fugira dele. Como que deu tão errado? Não. Ainda não. Ainda tinha aquela festa. Ainda tinha uma chance para se redimir.

A porta atrás de Art se abriu com o rugido da música, e se fechou com passos. Não reconhecia o som do andar de ninguém, mas, de alguma forma, soube quem era. Sorriu.

— E aí — disse Art, com os olhos no estacionamento.

— Fala — disse Von, inclinando-se no parapeito com ele. Estava com um terno totalmente preto, coisa que a mãe de Art tinha dito que nunca funcionaria, mas que de alguma forma funcionava. — Você sumiu depois da colação.

— Jantar de família. — Art sabia o que Von quis realmente perguntar, e continuou: — Só eu, meus pais e meus avós.

— Sei. — Era um tom triste ou feliz? — Eu tinha vários comentários sobre a chatice surreal da cerimônia, mas já esqueci todos.

— Mais atrás deve ter sido um espetáculo. Na primeira fileira eu só via os holofotes.

— Aposto que o Trevor tem bastante coisa pra contar, mas eu fico com o comentário do Tom.

— O que ele disse?

— "Foi chato" — disse Von, engrossando a voz, e logo depois rindo da própria imitação. Art não conseguiu não rir.

Mas o riso morreu rápido. Ainda tinha as ideias muito frescas na mente para não rir. Melhor ser direto, pensou.

— Sabe, Von... Esta é a nossa última festa como grupo.

Von ergueu uma sobrancelha e se virou para ele. Art continuou com os olhos fixos no estacionamento, mãos pousadas no parapeito, ereto.

— Como assim?

— Depois daqui todo mundo vai seguir o seu caminho. Essa coisa do curso de Física é temporária, tenho certeza.

— Você acha que alguém escolheu o curso só por causa do resto do grupo?

— Não. Quero dizer, talvez um pouco. Eu acho nenhum de nós sabe o que quer fazer da vida.

A isso Von não teve resposta. Art continuou:

— A faculdade vai mudar as coisas. A gente vai começar a ter que se preocupar com estudar mais, com dinheiro, vai descobrir novos interesses, fazer novos amigos... Cada um vai pro seu canto. Esta é a nossa última festa como grupo.

— Você tá pensando demais — disse Von, sorrindo. — Pra variar. Sai dessa. Vamos beber alguma coisa lá em baixo e procurar o Tom, ele deve ter alguma dica de como se dar bem.

— Ele provavelmente vai exemplificar o próprio conselho — disse Art, rindo. — Não vai dizer nada.

Os dois riram. Art parou primeiro.

— Porra, Von, foram bons anos.

— Foram. E ainda serão. Você tá pensando demais.

Mas Art não se convenceu. Von sabia. Era um fim idiota para a amizade deles, mas era um fim. O fim predestinado.

— A gente fez muita coisa maneira juntos — disse Art, meio sério, meio sorrindo. — Lembra daquela vez que subimos o morro do amanhecer de noite?

— Dá pra esquecer? — Von riu alto, gostoso, sem nenhuma preocupação na vida. — A gente era muito idiota. "Vamos subir sem as lanternas, vai ser mais emocionante!" Ainda bem que ninguém morreu.

— Ainda bem mesmo. — Art fez uma pausa. — Acho que nunca vou ter outro amigo na vida como você.

A frase séria tirou Von de sua leveza.

— Eu também — ele disse. — E vai continuar assim. Escuta, Art, eu sei o que você tá pensando. E foda-se. Não vamos deixar isso estragar tudo.

— Não... Vamos? — Art se virou para Von pela primeira vez.

— É. Foda-se. Vai lá, conversa com ela. — Ele engoliu seco, mas falou sorrindo. — Você e a Alesia ficam bem juntos.

Art não teve reação. Von continuou:

— Mas não deixa isso estragar tudo. Amizade é uma via de duas mãos. Eu te cubro se você me cobrir.

— Caralho. Ok, Von. Você tá certo. Os outros podem ir e vir, mas... Eu não vou sumir da sua vida se você não sumir da minha.

— Faço das suas palavras as minhas.

Von estendeu a mão, um pouco formal demais para a intimidade dos dois, mas o momento pedia isso. Art apertou-a vigorosamente, os olhos fixos nos do amigo.

Fora só paranoia idiota. Tudo daria certo no final, não daria?

— Agora vamos lá pra dentro.

— Claro!

Art voltou à música se sentindo novo.

Como Von era altruísta! Sacrificando a si mesmo pela amizade dos dois! Como Von era...

Melhor do que ele.

Art não merecia aquilo. Von merecia.

No meio da noite os dois se separaram, mas o pensamento não deixou a cabeça de Art. Bebeu sozinho, remoendo as palavras, imaginando cenários. Art nunca seria tão altruísta quanto Von. Nunca desperdiçaria a chance que o amigo lhe deu, mesmo sabendo que deveria. Mesmo sabendo que era o certo.

Eu não mereço isso, ele pensou, vendo Alesia na distância. Eu não mereço nada, ele pensou, afastando-se.

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E assim foi a formatura de Art... Por melhor que tenha sido o que aconteceu depois, bom, essa é a parte que ele se lembrou. A parte que carregaria até o fim da vida... Caso não planejasse voltar e reafazer. Enfim.

Espero que tenha curtido! Deixe um comentário!

E, a seguir, finalmente, o último capítulo do Princípios do Nada! Tá quase acabando...

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