— A fila é ali — disse o segurança, dando um passo para o lado e bloqueando a entrada. Os dois que tentavam entrar o encararam, e a expressão dele se tornou a de um homem vendo a própria morte.
— Ah, desculpem-me, por favor... — disse, deixando a passagem livre. Os dois entraram, o gordo fazendo um aceno de perdão. Todos os jovens na fila viram a cena com certa curiosidade, mas logo voltaram à sua bebida.
O interior do estabelecimento era o começo do caos que se perpetuaria pelas próximas décadas. Uma verdadeira legião de jovens, aglomerados de tal forma que era impossível não se manter em constante contato, pulavam em uníssono, alheios a tudo no universo fora a música. As notas, como o choro que o guitarrista tinha na face mas não nos olhos, arrancavam da plateia gritos que guerreavam com os alto-falantes pela soberania.
Os dois homens atravessaram a pista e os jovens abriram espaço, sem nem olhar para eles, como se repelidos por ímã. O careca abriu a porta com a placa "Somente pessoas autorizadas" e os dois desceram a escada em espiral.
— Que inferno é este que está tocando hoje? — perguntou o careca.
— Mal consigo imaginar. E eu achei que essas músicas não podiam ficar mais altas...
— É vantagem pra nós que você estava errado.
A escada era longa e mal iluminada, as paredes de concreto liso se tornando pedra bruta à medida que se descia. A música e os gritos enfraqueciam a cada degrau, tornando os passos dos dois audíveis. Ao final do fosso encontraram uma pesada porta metálica, que o gordo abriu sem esforço.
— Que paraíso — disse ele, e suas palavras ecoaram no silêncio do novo ambiente. O careca entrou logo depois, fechando a porta atrás deles.
O cômodo era o oposto das escadas e da pista. Era enorme, pé direito alto, ou baixo, ou os dois. Era uma esfera oca, grande o suficiente para acomodar uma casa, talvez duas. A porta atrás era curva, encaixando-se na parede côncava, e não reta, como era quando o gordo a abriu.
Os dois caminharam no ar em direção a uma mesa, sozinha no vazio do centro da esfera. As paredes do lugar eram recobertas de mobília, cadeiras, mesas, estantes, criando dúzias de ambientes diferentes em sua superfície, como um showroom de loja de móveis enrolado. Alguns ambientes estavam fora da parede, flutuando como se presos em vidro. O careca olhou para um lado, onde centenas de livros pairavam em volta de uma poltrona, como se alguém tivesse tirado a estante tão rápido que eles não tiveram tempo de cair. Olhou para outro canto, onde uma mulher estava sentada num pufe, de cabeça para baixo. Seu cabelo caía em direção ao teto, cobrindo parte de seus olhos. Ela brincava com o que se parecia com um cubo de vidro, cheio de cores, chocando-se e desfazendo-se numa guerra de feixes de luz. Ela ergueu os olhos para os dois, e depois para a única outra pessoa na esfera, um homem loiro e jovem que encarava um globo, girando-o com os dedos e fazendo anotações.
— Klen! — disse a mulher, saltando do pufe e indo em direção à mesa. — Cennen e Raffes chegaram.
Klen ergueu os olhos, assustado, logo vendo os dois e indo até a mesa.
— Desculpem o atraso — disse o careca, sentando-se. O gordo se sentou num assento da extremidade. Não havia lâmpadas em nenhum lugar, mas tudo era iluminado, uma luz que não era nem confortável, como a amarela, nem enervante, como a branca, mas algo entre as duas, que, pela forma como as cores da mobília voltavam aos olhos deles, mudava dependendo do local.
— Gaen pegou trânsito e vai se atrasar, algum autor grande foi até a biblioteca e toda a cidade foi lá ver — disse o loiro, Klen. — Como foi a apresentação?
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
