Capítulo 12: Profecia (XI)

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Enquanto Art olhava para cima, Von o invejou. Invejou a capacidade de planejar algo tão complexo, a inteligência e manipulação, mas não só. Invejou aquela convicção imbatível de que estava fazendo o certo.

Von não tinha mais ideia do que era certo.

Von não tinha mais ideia de nada.

Metade dele ouvira o discurso de Art com atenção, sentindo o peso de cada palavra, a dor delas, tudo na pele. Mas o resto de sua cabeça estava longe. Estava em Alesia, sua última expressão. Quando as pessoas da cidade voltaram aos corpos, com um efeito violento que por si só quase apagou Von, a Consequência pareceu ficar confusa, não saber como reagir. Curioso pensar no efeito como se tivesse uma personalidade, mas era assim que ele encarava. A Consequência caiu toda sobre Alesia, e o corpo dela simplesmente desapareceu. Não havia sequer o que enterrar.

Pensava nas memórias que tinha recuperado, na noite de formatura. Coisas demais para pouco tempo. Não era hora de pensar nisso, era? Ele falara isso a Alesia logo antes, quando ela tentara ser sincera com ele. Se ele tivesse ouvido, falado... Ao menos...

Talvez devesse ajudar Art. Sozinho o amigo demoraria anos para voltar, mas juntos... Mesmo sem cooperar, juntos eles descobriram que conseguiam fazer objetos sem saber como eles funcionavam. Juntos conseguiram criar matéria. Do que mais seriam capazes? Poderiam voltar os dois, acabar com Merriam... Ele teria Alesia de volta, Art teria Seh e Henderson...

Mas Von não ajudaria Art. Nem agora, e nem nunca mais.

E aí.

Seh caminhava pelo meio da avenida, descalço, as mãos nos bolsos. Usava uma roupa estranha, branca. Tinha uma expressão de pesar como Von nunca tinha visto.

— Seh. Eles... A Alesia...

— Ele sabe — interrompeu Art. — Ele esteve olhando... Não esteve? E não interferiu?

— Eu não estive olhando. Se estivesse, quem sabe... — Ele suspirou, erguendo os olhos acima. — Não, mesmo assim eu não teria feito nada. Nem fui eu que voltei as pessoas pros corpos.

— Mas você sabe — disse Von.

— Sim. A Alesia, cara.

Seh caiu sentado, leve como uma pluma. Apoiou as mãos atrás do corpo, e fitou o céu com uma leveza triste, como se não conseguisse aceitar o que acontecia. Parecia o Seh que cresceu junto com eles, contemplando a própria tristeza com uma curiosidade infantil.

— Você sabe onde tá o Livro, Art? — Seh perguntou.

— O Livro? — Von franziu o cenho.

— Merda! — Art olhou para os lados, para trás, deu uma volta no lugar. — Eu esqueci ele lá no Bosque!

— Por que isso é importante? — perguntou Von. — O Livro não vale nada, você não sabe, Seh? Foi só uma invenção do Art.

— Engraçado você dizer isso — disse Seh. — Minutos atrás você usou o conhecimento que tirou do Livro para fazer algo nunca antes feito neste mundo, e acabar com a vida de um dos seres mais poderosos que já andaram pela Terra.

Von gaguejou, olhando para Art. Seh explicou:

— O livro que Art colocou na livraria, sim, aquele livro não vale nada.

— Mas o Livro que o Trevor levou não era aquele — disse Art, baixinho.

— Não. O Livro que esteve com vocês era outro... Mas, bom, se ele ficou no bosque o Henderson deve ter ido pegar ele.

— Como assim outro livro? Que história é essa? Art, você sabia?

— Descobri tem pouco tempo, logo depois de encontrar... A Lena. Aquele Livro é coisa sua, não é, Seh? Por que você fez isso?

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