Quando Von abriu os olhos Art já estava de pé, refazendo o braço esquerdo. Viu o osso retroceder para dentro do músculo e puxar o resto do sangue com ele, deslizando pela grama numa cachoeira reversa. Art estava ficando bom naquilo, embora ainda fosse um pouco inseguro. Von terminou de arrumar a mente enquanto o amigo ainda trabalhava no braço, e por mais que achasse correto deixá-lo praticar sozinho, estava impaciente.
— Isso não vai dar certo — disse Von, refazendo o braço de Art num estalo. Sentou-se no chão, a mente voltando à claridade usual com um pouco da ajuda do amigo. — É a Lena. Tentamos tudo.
"Tudo" era perigosamente próximo da verdade. No mês que se passou tentaram todas as variações imagináveis do teatro. Aquele pico já fora feito e refeito mais vezes do que Von conseguiria contar, umas em poucos segundos, outras numa tarde inteira, colocando todas as folhas uma a uma. Enquanto isso, Art havia desenvolvido sua técnica de recuperar memórias até o limite. Conseguia se lembrar com detalhes impossíveis do dia de seu próprio nascimento, e até antes (quando havia, como os dois assistiram, só sons e luzes). Refizeram seu simulacro dentro de uma caverna, desenvolvendo ilusões complexas para simular o lago à distância, o vento, o sol. Von passou uma semana tentando criar mais espaço, fazer uma sala pequena por fora ser gigante por dentro, mas quando sentiu que estava chegando perto disso criou por acidente algo parecido com o que fizera naquela primeira manhã com a neblina, quando Alesia apareceu... Desistiu depois disso.
Os dois trabalharam em conjunto por dez dias para criar uma Lena artificial, e tiveram êxito impressionante nisso. Art puxou todos os anos de convivência da memória, Von criou um corpo a partir da terra, veia por veia, músculo por músculo, lembrando-se de todas as vezes que consertou o corpo de Art. Mas ainda não fora suficiente. Nenhum dos dois sabia o que se passava dentro da cabeça de Lena.
Todas as vezes o simulacro teve o mesmo final. Os dois despertavam à beira da morte, Art com os ossos quebrados e músculos desfiados, Von com a mente tão danificada que não tinha nenhum dos sentidos.
— Eu não tinha pensado nisso — dissera Art, na primeira vez que despertaram. — Temos facilidade aqui. Ainda bem que o meu mecanismo de parada funcionou.
— É — respondera Von. Estava caído com a cara no chão, totalmente imóvel. — Mas também, você achou que a gente voltaria pro lago instantaneamente. Agora me ajuda a sair dessa que eu conserto você.
Na maioria das vezes acabavam criando algum efeito adverso que não esperavam: uma vez congelaram as árvores, noutra despedaçaram boa parte do pico, e numa das mais assustadoras um ponto do céu ficou rosa-choque por uma hora. Agora, quando acordaram, as árvores estavam em chamas. Talvez a fumaça chamasse alguém, e essa possibilidade, que outrora os assustou, parecia a melhor chance de saírem dali. Não que, num mês de isolamento, a esperança de ver outro ser humano permanecesse viva.
— Tem que ser a Lena — respondeu Art, olhando o braço novo com certo espanto. Von sempre acertava o tom de pele, coisa que ele nunca conseguia. — A gente fez tudo igual, o estímulo visual, as emoções... Foi uma reprodução perfeita, como a maioria delas. Mas a Lena nunca vai ser perfeita.
— Foi algo ali no final. Logo depois que ela gritou — disse Von, sentando-se, sacudindo a cabeça e vendo se algum dos ossos de Art precisava de retrabalho.
— É. E não temos memória do que quer que seja aquilo.
— Bom — disse Von, deitado de costas, exausto. O fogo cercava-os, já tendo consumido todas as árvores que ele moldara minutos atrás. A Lena falsa mais recente já era, novamente, só um bolo de terra. — Qual o novo plano?
— Agora voltamos à alternativa A — disse Art, tentando desfazer o fogo com meia dúzia de bolsões de vácuo. Não foi deu muito certo. — A gente aprende a teleportar.
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Princípios do Nada
Mistério / SuspenseE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
