Capítulo 6: O Aviso de Rocan (I)

7 0 0
                                        

Von se esgueirou pela porta dupla, esmagado pela multidão que ainda corria, mesmo sem mais sinais de instabilidade no shopping. Quase fez os moles se afastarem dele, mas era arriscado. Art e os outros podiam sentir, e perceber que ele ainda estava por ali.

Isso era algo que os quatro nunca deram atenção: serem notados. Por mais que Merriam não tenha dito uma palavra a respeito, eles deveriam ter concluído que o que faziam era detectável, e rastreável, mesmo de longe. Seh falara um pouco disso, dizendo que era trabalhoso demais. Provavelmente ele nunca teve que se preocupar com isso, pensou Von. Seh não temia nada.

A multidão levantou Von do chão e o cuspiu para fora do shopping, com tanta violência que ele quase caiu. Deu alguns passos rápidos, retomando o equilíbrio, e viu Trevor encostado num poste, do outro lado da rua.

Demorou — disse Trevor, enquanto Von atravessava a rua.

— Eu tentei sair pela outra saída — ele respondeu, retomando o fôlego —, mas ela tava fechada — mentiu, lembrando do rosto de Alesia. Depois eu resolvo isso.

Os dois se afastaram do entorno do shopping, tomando uma série de atalhos que só quem cresceu pela cidade conhecia, e logo estavam caminhando sozinhos pela noite. Von se lembrava de Trevor tendo medo de andar tão tarde pelo centro, mas agora parecia totalmente à vontade. Mais uma vez, Trevor era capaz de muito; mas, claro, ainda tinha a cabeça cheia de perguntas. Abriu a boca meia dúzia de vezes, tentando começar a conversa mas pelo jeito sem saber como, ou por onde, começar. Cada novo fragmento relembrado respondia uma pergunta, e trazia mais dez. Von estava passando pela mesma coisa.

— Como você encontrou esse Rocan? — perguntou Von.

— No bosque, logo depois que você veio falar comigo. Ele tinha achado o Livro.

— Ele achou? Foi ele que pegou o Livro?

— Não, cara, eu te falei. Eu que escondi. O tal Rocan disse que não queria confusão, e por isso não pegou.

— Por que você tava no bosque, falando nisso?

— Eu tava procurando vocês, vocês sumiram tem dias.

— Dois dias — disse Von, mas hesitou. Parecia mais. — A gente tava na casa do lago. O que você pretendia tirando o Livro do lugar, afinal?

— Eu achei que o melhor jeito de resolver o problema era se livrando dele, e nem você nem o Art pareciam querer fazer isso. Aí a gente encontrou o Rocan. O Tom também viu ele... Eu até chamei o Tom pra vir aqui, mas ele disse que não era mais da alçada dele, e depois murmurou algo sobre sair com a namorada. De qualquer forma... Você conhece esse Rocan?

Rocan.

Antes de Siman, nunca ouvira o nome na vida. Certificara-se disso, mergulhando na biblioteca das memórias, relendo cada diálogo, procurando cada menção... Merriam nunca o mencionara, mas, bom, Merriam nunca mencionara ninguém. E, pelo jeito, Von e Rocan eram parecidos. Von não conhecia nenhum sósia, e seus irmãos e primos eram bem diferentes dele.

Von arregalou os olhos. Seria... seria o próprio pai? Não o via há meses, e nem interagia com ele direito há anos, desde que os pais saíram viajando pelo mundo. Parecia lógico que alguém como Rocan viajaria bastante, conhecendo, estudando e aprimorando a arte. Era possível? O velho pai, com a barriga proeminente, as piadinhas racistas, o...

Ele riu. Que viagem; é claro que não era seu pai. Eles nem eram tão parecidos. Estava se parecendo com Seh. Não o Seh que lhe ensinara coisas, mas o Seh de antes, o que vinha com essas ideias malucas o tempo todo. Imagine, seu pai, um grande poderoso ser que vagava o mundo...

Princípios do NadaHistórias para pegar e não largar. Descubra agora