Art estava de olhos fechados. Sorria intensamente, como se ouvisse uma grande e magistral sinfonia dentro da sua cabeça. Patinava no ar, veloz como uma bala, desviando o vento do corpo para ir mais rápido. A brisa deixava a margem do lago crespa, cheia de pequenas ondas, como no asfalto malfeito de uma das maiores avenidas da cidade. Não havia carros nem pessoas: ainda estavam todos sem a consciência, essência. Sem fé. Os olhos do jovem se abriram por capricho, lentos, e não demoraram para se esbugalhar.
Alesia estava parada no meio da avenida, extasiada demais com seu próprio feito para notar o perigo. Art tentou parar, mas o melhor que conseguiu foi desacelerar e virar de lado, atingindo em cheio a garota, tornando os dois uma confusão de braços e pernas, girando pelo ar. Caíram na ilha de grama entre as pistas da avenida.
— Alesia?! — disse Art, pondo-se de pé num salto. Era o Art que ela conhecia: desajeitado, tímido, visivelmente desconfortável em situações inesperadas. Não o Art se pagando de fodão. Alie ficou mais tranquila, mas logo se lembrou de que estava com raiva.
— Art! — Ela se levantou, apontando o dedo ossudo para ele. — É verdade? O Livro é coisa sua?
— Você tava olhando? — Ele coçou o queixo com o braço recém feito. — É, eu não teria notado... Você fez bem em escapar do negócio que tirou os moles da cidade. Eu achei que você e as garotas estavam seguras lá embaixo, como a Lena não veio.
— Não muda de assunto! É sério aquilo que você disse? O Livro é coisa sua, desde o começo?
Não podia ser verdade, podia? Ela não dormiu direito a semana inteira por causa do Livro. Quando Trevor abriu o embrulho pela primeira vez ela correu para vomitar. Fora só uma mera sugestão? Buscou fundo na memória, cavando entre as mil imagens dos últimos dias, e pescou a foto do momento que Trevor mostrou o Livro para o grupo. Ele ficara assustadíssimo, pálido, rindo com um nervosismo surreal. Von parecera estupefato, enchendo rapidamente a cabeça de perguntas e planos. Alesia não vira os rostos dos outros, mas vira o de Art. Art não olhara para o Livro; olhara para os outros. Medira as reações dos outros.
Os pensamentos voltaram como balas. Por que o Art não tá babando por esse Livro? Parece que ele nem tá dando bola pra ele... Art nunca era tão omisso, a não ser... A não ser quando planejava algo.
— Não acredito que não pensei nisso. — Ela recuou, enojada. — Eu achei que você não faria isso com a gente. Qual o seu plano? Você realmente esperava que tudo isso fosse acontecer?
— Tudo isso o quê? — Ele soltou um riso frouxo. — Não aconteceu nada com a gente. Ok, vocês ficaram meio perturbados, mas só eu coloquei o meu na reta, e continuará assim.
— Não fala merda. Até onde eu sei esses caras podem matar todo mundo da cidade a qualquer momento.
— Eles não vão fazer isso.
— É Art, essa é realmente uma ótima hora pra ter fé em negócios improváveis.
Art fez uma careta, olhando-a ao mesmo tempo com desdém e preocupação. Ele penteou o cabelo com as mãos, desajeitado, antes de falar:
— Eu queria te contar, Alesia. Queria te ensinar algumas coisas pra ter certeza que você ficaria segura. Por isso que te procurei no domingo, antes do Trevor levar o Livro pra reunião.
Alesia sentiu o sangue subindo e preenchendo a sua face. E não de uma maneira boa.
— Me ensinar?! — ela exclamou, tão alto que o bairro todo teria ouvido, se as pessoas estivessem lá. — E a Cella? O Trevor, a Clara? E a Lena? Ou ela já é um caso perdido, depois que você mexeu com a cabeça dela?
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Princípios do Nada
Mystère / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
