Capítulo 3: Os Picos (IV)

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— Von. Acorda.

Von grunhiu, tapando os olhos com o antebraço. A cortina estava totalmente aberta, e a janela era parcialmente coberta por uma figura longa. Quando Von finalmente abriu os olhos, apoiando-se nos cotovelos, viu a cama ao seu lado vazia e Art do lado da janela, encarando a luz matinal. Era uma luz fraca, não o sol forte que estava esperando, como se o céu estivesse encoberto, ou...

— Vem ver.

Von saiu do cobertor de lã e caminhou até a janela. Empurrou Art para o lado, o amigo empolgado demais para reclamar, e não viu muita coisa. Coçou os olhos. Branco. Olhou para o lado e o sorriso separava a face de Art em duas.

A mente sonolenta de Von demorou um segundo para ligar os pontos.

— Neblina — ele sussurrou. Art disparou na direção da porta, gritando por Lena (que dormia no quarto ao lado). Von congelou no lugar, estômago embrulhado.

A casa do lago não era a mesma sem Alesia. Os três tentavam fingir que não notavam, que a ausência dela não era nada demais, mas houve uma grande queda no ânimo. Todas as reuniões depois do incidente foram silenciosas, apáticas. Aquela era a manhã mais animada — a única manhã animada — desde que ela tinha ido embora.

Era o último final de semana do semestre letivo, e os três decidiram passá-lo todo na casa do lago, como andaram fazendo em quase todos os finais de semana do semestre. Era inverno, mas, não de todo incomum na cidade, alguns dias foram quentes e ensolarados o suficiente para atrair pessoas até o lago. Convidaram o grupo para ir ali, mas a maioria estava ocupada com as provas, Tom havia desaparecido, Alesia desconversara. Sábado acabou sendo um dia tão bonito que o lago ficou cheio, cheio demais para eles fazerem qualquer coisa. Não que estivessem especialmente animados. Começavam a bater na terrível barreira do autodidatismo, onde o esforço necessário para avançar tornava-se cada vez maior. Isso, combinado com o que aconteceu com Alesia... Dizer que estavam desanimamos era fazer pouco da situação. Precisavam ou dar um passo longo ou pensar em outra coisa: a casa do lago já não era suficiente.

Von desceu as escadas devagar, já ouvindo os dois preparando um café da manhã rápido na cozinha. Entrou na cozinha e viu eles mastigando ovos mexidos, Art enfiando enormes pedaços na boca.

— O que você vai tentar, Lena? — ele perguntou, engolindo ruidosamente, enquanto Von sentava-se ao seu lado e encarava o prato vazio.

— Eu queria... — Ela abaixou os olhos, como era seu costume, falando tão baixo que mal se podia ouvir. Bebeu um longo gole de chá, tentando esconder um pequeno sorriso maléfico. — Eu vou testar umas, hã, coisas mentais.

Em ocasiões raras "o frio descia da serra", como explicavam os locais. As nuvens que constantemente abraçavam o conjunto de montes ao leste "desciam", e o lago ficava envolto em névoa esbranquiçada. Von sabia que o que viu além da janela não ocorria só ali: em toda a extensão do lago não se via mais do que alguns palmos à frente do rosto. Mesmo no inverno as pessoas iam ao lago, caminhar ou fazer um piquenique. Mas com a neblina ninguém iria até ali. Ninguém veria o que eles estavam fazendo, não importa o quão próximo ou distante estivesse.

Ninguém por perto. Nenhuma fé para atrapalhá-los. O dia perfeito.

Von se sentia enjoado.

— E você, Von?

— Não pensei muito nisso ainda — disse Von, forçando-se a engolir alguns pedaços de pão duro e suco morno. Art estava empolgado demais para notar.

Terminaram de comer e saíram para a floresta que cercava o lago. Conseguiriam ver a margem à frente caso fosse um dia normal, mas com a neblina eles só viam as árvores mais próximas. Não demorou nem cinco segundos para Art sumir entre os caules espessos, mergulhando na bruma. Lena olhou para Von, soltou um risinho, e desapareceu ela também. Von não ria.

Ele se lembrava bem da última neblina. Via em Art a mesma empolgação que o dominou naquela ocasião, enquanto acordava ele, Lena e Alesia, pensando no que faria. No véu da neblina, estariam totalmente sozinhos! Só a fé deles próprios para segurá-los! Ele acreditou que podia fazer o que quisesse.

E veja o que fez.

Suspirou pesadamente. Sentia falta de Alesia, mas não tinha ideia de como fazê-la perdoar os três. Perdoar ele. Será que Art e Lena não se lembravam? Ignoravam o ocorrido? Von olhava para a névoa só conseguia pensar em Alie, o terror estampado no rosto dela.

Será que conseguiria resolver aquilo? Era só tentar: ninguém o impediria. Caminhou e sumiu na neblina.

O vento correu pela sala de aula, levantando o cabelo castanho da garota que dormia e fechando a porta com um estrondo.

Alesia saltou na cadeira e engasgou com a própria saliva. Olhou à frente, e o professor parecia incapaz de ligar menos para ela. O quadro estava cheio: ela cochilara por vários minutos.

Sentia-se estranha, nervosa. Que sonho foi aquele? Mal sabia que os três tinham ido à casa do lago, e sabia menos ainda sobre o que Von pensara na ocasião. Então... O que era aquilo? Imaginação?

Ainda estava cansada. Achara que a soneca a deixaria desperta, mas ao fim parecia tê-la deixado ainda mais sonolenta. Cobriu a boca enquanto bocejava, e num passar de olhos viu que ninguém olhava para ela.

Alesia forçou-se a ouvir as palavras do professor por alguns minutos, mas era como se atravessassem seu cérebro. Faziam sentido segundos após serem ditas, mas depois perdiam-se no limbo. Colocou o caderno na mesa e abriu-o em uma folha em branco. Passou os dedos por ela. Era tão macia... Segundos depois deixou a cabeça cair sobre o caderno e esperou, num último segundo de consciência, voltar àquele sonho.


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