Acharam o condomínio onde ficava a casa dos pais de Seh facilmente. A chuva e o escuro combinavam-se para limitar muito a visão, mas era um caminho conhecido demais. Caminhavam como se estivessem em pequenas ilhas de concreto, cercados pelo escuro entre os postes e a garoa fina. Nenhuma água caía neles. Era um bairro muito pouco movimentado.
— Ei, olha só...
— Ah, caramba — disse Von, olhando para onde Art apontava, uma sugestão de sorriso crescendo na face. — Era ali que a gente brincava, não? Naquele parquinho... tinha aquele escorregador maldito...
Os dois diminuíram o passo, sem coragem para ser o primeiro a parar de andar. Viam o parque iluminado pelas lâmpadas fracas, os brinquedos coloridos desbotando igual às fotos velhas que tinham em casa.
— O que aconteceu com o Seh, Von?
A face de Von relaxou, e ele gaguejou. Pela cara, não esperava ouvir aquele tom sincero de Art tão cedo.
— Eu... eu não sei.
O aparecimento de Merriam e a formação dos quatro tomou tanta atenção de Art que fê-lo esquecer das dúvidas que tinha sobre Seh. O amigo tinha mudado de forma absurda, inexplicável, desde que entraram na faculdade. Art só deu a atenção que aquele assunto merecia alguns dias antes...
— Tem que ter a ver com o ano que ele passou fora — disse Art, tão imerso nas memórias de infância que deixou o pensamento escapar.
— É, verdade — disse Von. — Nunca pensei muito nisso.
Art agradeceu Von estar olhando para o lado. Quando percebeu tinha os olhos arregalados e a boca aberta: uma representação simplista do quanto estava surpreso.
Ninguém no grupo de estudos sabia sobre o ano fora de Seh. Ninguém.
Seh desapareceu no ano que entraram na faculdade e voltou no ano seguinte, trazendo Henderson com ele. Ninguém comentou nada, ninguém fez perguntas. Art reviu todo aquele ano de ausência, os primeiros dois semestres de Física... E não houve dúvida. O assunto "onde está o Seh" não surgiu nenhuma vez; não, pior, ninguém nem mencionou Seh. Era como se ele tivesse sido arrancado das memórias deles, para retornar um ano depois, sem consequência alguma fora os rastros que deixou na mente de Art.
Ele percebeu aquilo enquanto testava um ritual complexo que aprendera no livro azul, da capital, meio sem querer. Entendeu a estranheza da situação imediatamente, mas guardou aquela informação, tentando entender seu significado. Qualquer um que ouvisse aquilo ia pirar, não? Era absurdo, eles simplesmente esqueceram Seh sem motivo! Mas Von parecia só curioso, como se Art tivesse levantado um problema de Física interessante.
Isso significava mais alguma coisa. Algum pedaço do quebra-cabeça.
— O que será que ele foi fazer? — disse Von, momentaneamente esquecendo toda a situação, tomado pela confusão e realização. Baixou a guarda.
Art não hesitou. Fechou os olhos e inspirou, o cheiro do asfalto úmido e da grama enchendo seus pulmões, e entrou. Sentia-se um tanto mal de fazê-lo daquela forma, mas tinha de saber. Não fazia isso para ter qualquer vantagem sobre Von, fazia-o para saber a verdade sobre Seh.
Teve meros instantes, mas cavou fundo, rápido, tomando o maior cuidado do mundo para não ser notado e deixar as coisas do lugar. Era diferente de como se lembrava, diferente de como era na segunda neblina. Naquele dia vira luz e juventude, vira... cimento úmido, ideias voando livres e soltas... vira o peso no canto, pequeno... e fragmentos de memórias que não compreendeu.
Agora via nuvens escuras como piche, trovões à sua volta, prontos para torrá-lo. Via imagens confusas e medo, mas via também poder — via perigo incrível, pesar, e, sinceramente, muito mais do que esperava encontrar num lugar que julgava conhecer muito bem.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
