Capítulo 4: Viagem de Negócios (VI)

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— Fico feliz que você não parou, Alesia — disse Lena, sem tirar os olhos das cartas.

O clima de festa do pijama continuava a todo o vapor. Elas beliscavam os salgadinhos que Alesia trouxera, um filme de mistério muito antigo passando na televisão, e jogavam cartas.

— Como é? — respondeu Alesia, olhando para a amiga.

— Que você continuou, mesmo depois de ir embora depois da primeira neblina.

— Ah. — Alesia suspirou. Pensou em perguntar como Lena sabia, mas, no final, não importava. Será que ela descobriu no dia da chuva, no Bosque? Ou só poucas horas antes? Foda-se. — Por quê?

— Porque... Não sei, achei que parar não combinava com você. Sabe, eu pensei em parar depois daquele dia. Depois que você foi embora as coisas não foram mais as mesmas.

Alesia tentou não sorrir, mas um lado dela queria muito ouvir aquelas palavras. Lena continuou:

— Acho que a nossa vontade de continuar caiu, principalmente a do Von. É engraçado... Desde o começo eu achei que algo assim ia acontecer.

— O quê? — perguntou Alesia, levemente irritada. — Você sempre achou que eu...

— Não você — disse Lena, o sorriso calmo sempre presente. — Eu sempre achei que ia dar algo errado... Não podia continuar assim pra sempre, podia? Nós quatro, fazendo o que quiséssemos e nos divertindo... Era claro que... Não podia durar. — Ela baixou os olhos. — Não algo tão bom. Se não fosse você brigar com um dos dois, eles brigariam entre si. Só não achei que daria tão errado assim. — Seus lábios ainda sorriam, mas os olhos estavam grudados no chão. — Subestimei meu azar. Mas mesmo agora, depois de ver o Livro e sentir o perigo... Eu não conseguiria parar.

Lena ficou distante, os olhos claros perdidos em algum ponto da parede. Alie nunca entendeu muito bem o que a amiga queria da vida. Achava que ela simplesmente não planejava muito à frente, ou que não sabia. Nada de mais: a própria Alesia tinha dúvidas sobre o que faria da vida, mas... Às vezes parecia que Lena não tinha ambição. Art sempre bradou que queria ser um cientista, descobrir algo sensacional, enquanto Von e Seh concordavam. Trevor falava que queria entender como o universo funcionava, Cella dizia que queria ajudar crianças a entenderem conceitos complexos, Tom acenava com a cabeça... Mas se alguém do grupo de estudos entrou no curso de Física por causa dos amigos, Alesia diria que foi Lena.

— Por quê? — Era uma pergunta óbvia: por que Lena, tão incerta com tudo, não desistiu de algo tão perigoso? Alesia só não tinha ficado curiosa com isso antes por nunca ter feito essa pergunta.

— No começo era pela curiosidade, sabe? Até onde isso podia ir? Que tipo de coisa dava pra fazer? Merriam foi muitas coisas, mas nunca exibido.

— Ele não podia se exibir pra gente, a nossa fé destruiria ele — disse Alesia, lembrando-se da aula involuntária que recebera de Art no apartamento de Henderson. Ela olhou para o braço ensanguentado de Art. — Consequência e tal.

— É verdade — Lena se virou para os corpos dos dois, mas não notou o sangue, ou a bacia que Alie tinha colocado quando o curativo de Art começou a pingar. — A não ser que ele tivesse uma fé muito maior do que as nossas. Mas enfim, no começo era mais para entender o potencial disso, mas agora é diferente. Agora eu percebo o que temos nas mãos. — Ela ainda encarava o chão, mas seus olhos adquiriram um brilho frio, que não combinava com ela. — Nunca mais vou precisar viver a vida comum que achei que teria, ter emprego, casar, ter filhos... Tantas possibilidades! A vida pode ser uma aventura, pode ser o que eu quiser! É só continuar explorando, aprendendo...

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