Art e os Mantos da Capital demoraram dez minutos para amarrar o corpo do homem, mas quase vinte para amarrar sua mente. Fora o desmaio, o peão enviado para tentar pegar o Livro parecia bem. Art começou a transformar os galhos das árvores em cordas, pensando em impressionar os homens, mas quando olhou para o lado Cennen já prendia as mãos do peão com algemas de aço.
— Por que peão? — perguntou Art, vasculhando os bolsos do homem, sem encontrar nada.
— Assim que eles chamam os soldados rasos — respondeu Gaen.
— Mas este não é tão raso assim — disse Raffes, massageando a cabeça do peão, tanto com as mãos quanto com a mente. — É um iniciado. Não é um... Mole. Heh. Gostei do termo.
— Quer dizer que eles acharam o assunto digno de um peão que soubesse com o que está lidando — disse Art, e Raffes concordou com a cabeça. O jovem escolheu as próximas palavras com cuidado: — Imagino o que seria grande o suficiente para chamar os cargos maiores...
Ninguém respondeu.
Terminaram de prender o homem, e, analisando o que ele tinha em seu interior, encontraram uma série de defesas passivas contra invasão e roubo de informações. Sua mente era cercada por muralhas de pedra, intransponíveis. Art estudou as estruturas que encontrou, e teve um vislumbre da grandiosidade do que presumivelmente eram os cargos altos da Presença. Interpretava o que sentia como um conjunto de equações, demonstrando claramente, entre axiomas, teoremas, hipóteses e corolários, que a mente do peão era inacessível. Visualizava os detalhes como linhas e planos, matrizes e gráficos, formando estruturas cristalinas perfeitamente ordenadas.
Já vira um nível de complexidade parecido, embora, a ele, ambos eram tão acima de sua capacidade que era difícil compará-los. O que Seh fizera com o grupo de estudos, para que ninguém se tocasse da sua ausência, era certamente complexo, mas era também fundamentalmente diferente do que havia dentro do peão. Era organizado, eficiente, mas também... Natural. Não havia palavra ou explicação melhor.
Cennen obviamente perguntou sobre o Livro, e Art respondeu com a naturalidade de quem realmente acabava de descobrir.
— Eles devem ter mudado de lugar — disse, quase em monólogo. — O Livro de verdade não está aqui.
Com tudo que Von fez em volta do envelope era quase impossível sentir o Livro dentro dele. Até cinco minutos atrás Art podia apostar que era o livro certo em cima do toco. O que encontrou, entretanto, era um dos livros de Física que ele deveria estar estudando. Trevor, será? Mas como?
— Eu sei onde o Livro de verdade está — mentiu ele, mas os Mantos pareciam mais interessados no peão.
— A situação não é animadora — disse Cennen. — Quando notarem a ausência deste aqui vão dar mais atenção a nós. Talvez mandem alguém poderoso.
— Acho que é uma boa hora pra vocês me explicarem melhor umas coisas — começou Art. — O que é a Presença? E qual é a de vocês?
Por um momento só o vento falou, até que Raffes limpou a garganta:
— Existem vários grupos grandes, mais antigos e poderosos do que aqueles que continuam aqui em baixo. Um grupo específico tem os olhos sobre esta região. A Presença. — Raffes falava pausadamente, procurando apoio e aprovação em seus colegas a cada palavra. — Alguns de nós já trabalharam para eles. Os Grão-Mestres, que tomam as decisões, são uns tipos difíceis de entender ou prever.
— Nós somos autônomos — disse Gaen. — Não concordamos com as ações da Presença, com sua indiferença ao mole, sua falta de sensibilidade ao que chamam de "seres humanos". Pouco lhes interessa a humanidade e o que acontece com ela.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
