Alesia apressou-se na multidão quando viu Von. Não estava exatamente o evitando naquela noite, mas estava o evitando. O amigo usava um terno tão negro quanto suas roupas de sempre, inclusive com camisa e gravata totalmente pretas. Por algum motivo aquilo caía muito bem nele; coisa que a garota com a qual ele conversava parecia concordar. Estavam num canto do salão lotado, a garota recostada, fingindo timidez, ele quase caindo em cima dela, uma mão apoiada na parede, a outra no bolso. Tinha o cabelo impecável, e o sorriso. O sorriso convencido do Von. Pobre Lena. Alie apertou o passo.
Estavam no que Seh chamaria de "momento ótimo" da festa. Meia hora atrás os pais dos formandos já haviam saído, com um sorriso orgulhoso e um grito de "juízo". Agora os jovens já perdiam as amarras sociais, afrouxando as gravatas e correndo para o bar. Todos os colegas que ela conhecia mas não conhecia, as centenas faces familiares de cidade pequena... Perseguindo saias ou gravatas, rindo, chorando, bebendo e pincelando no cérebro o que seriam memórias para a vida.
A festa estava lotada. Parecia abrigar todos os jovens da cidade e das duas próximas, entre a pista de dança, as mesas ao entorno, as varandas internas do segundo andar, e o bar. O som chegava em todos os cantos, a guitarra viva e entusiasmada, o baixo sóbrio e sorridente, os pratos cantando junto com o bumbo. Mas, mais cheia e barulhenta que estivesse a festa, Alesia ainda teria conseguido achar os amigos. Se quisesse. Precisava de um pouco de ar.
O vento quase levantou seu longo vestido roxo (que ela quase se recusara a usar, preferindo algo mais curto, até que sua mãe a obrigou a experimentá-lo e ela teve que dar o braço a torcer), e, quando seus olhos se acostumaram com a claridade, Alesia percebeu que estava sozinha. A varanda externa dava para o estacionamento, agora silencioso, e havia alguns sofás brancos dispostos pelo piso de madeira. Ela não entendeu por que ninguém estava ali até a porta se fechar atrás dela. A música parou. Quase se arrependeu, mas era melhor assim.
Alesia suspirou, apoiando-se no corrimão com os braços nus, o cabelo escorrendo pelo ombro e roçando nas mãos. Era só o começo da festa, teria dito Seh, só o começo da parte ótima onde o nível alcoólico fica alto e coisas inesquecíveis acontecem. O Seh antigo, que ela nunca dera atenção. Não o novo Seh, que a beijara na sacada da casa de praia, semanas antes. Não pensa nisso. Ele não está aqui. Eventualmente ela voltaria para dentro, e sabe-se lá o que aconteceria. Um lado dela ficou aliviado ao ver Von com outra garota, mas um só. O outro queria tê-lo visto com Lena, e por isso estava enjoada.
Mentira.
A maior parte dela estava com ciúmes. Ela conhecia Von bem demais. Provavelmente fizera planos para aquela noite. Talvez tivesse ensaiado algo para dizer a ela, mas nunca diria. Não por covardia besta, mas por medo de que isso iria... Ferrar tudo. Isso que ele diria, pensou Alesia, sorrindo. Se ela fosse conversar com ele, mesmo que casualmente, talvez rolasse alguma coisa. Talvez ela estivesse pensando nisso só pelo vazio da ausência de Seh. Talvez ela realmente se sentisse assim, e o próprio Seh foi só uma distração. Era difícil dizer, principalmente com todo aquele champanhe.
O vento e o escuro faziam-na se sentir sóbria. Viva. Ainda não vira Art na festa.
Art. Estivera evitando-o nos últimos dias, por saber exatamente o que ele faria. Uma conversa perdida ali, um comentário solto de Von, e ela entendeu todo o plano. Haveria um convite, um jantar com a família, uma caminhada, e então estaria no ar. Talvez Art não ligasse para o que seria de Von, mas ela preferia pensar que não. Provavelmente eles conversaram a respeito, e chegaram em algum consenso.
Mentira.
Eles nunca falavam dela; por algum motivo, alguma intuição feminina, sabia disso. Podiam falar de Cella e de Lena, mas não dela. Não daquela forma. Art provavelmente não conseguia mais se segurar; ou isso, ou chegou à conclusão de que Von entenderia. Alesia viu a confiança em seus olhos, e percebeu quão sério era seu plano. A formatura. O lugar perfeito. Se ela não tivesse fugido dele, se ele a tivesse convidado... Não terminaria bem.
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Princípios do Nada
Mystery / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
