Capítulo 12: Profecia (I)

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Art passou a mão por uma das páginas do Livro, sentindo o papel espesso, áspero. Boa parte do volume estava arruinado, e ele nem cogitou tentar arrumá-lo. Estava exausto, e era uma péssima ideia tentar reconstruir um livro como aquele. Manipulá-lo, principalmente na pressa, podia destruir tudo que o fazia único.

Demorou para perceber que só conseguia olhar para o Livro sem se sentir mal porque não conseguia se sentir mais mal. Esteve prestes a surtar, a cair em posição fetal e rezar para que a noite acabasse, mas não podia. Não tão perto. Colocou todas as emoções numa caixa de chumbo e reforçou as paredes com concreto, prendendo os sentimentos como as bestas selvagens que eram, ameaçando dilacerar sua sanidade. Ele tentava se convencer que, quando conseguisse ler o Livro, quando aquela madrugada eterna acabasse, tiraria tudo da caixa e olharia. Até então, não sentia nada.

Se Art pudesse se sentir desconfortável, se pudesse sentir alguma coisa, estaria. E muito. Já lera um livro daqueles, o volume de capa azul que falava sobre a mente, na biblioteca pública da capital. Aquele fora, até certo ponto, fácil de compreender. E, ao que tudo indicava, muito menos poderoso que o tomo à frente do jovem.

Pelo menos o assunto ele entendia. Caos, desordem, morte e destruição. Entropia talvez, usando a definição coloquial ao invés das fórmulas físicas que ele sabia de cor.

Todo o resto era absolutamente incompreensível.

O que aconteceu com o livro falso que ele fez? Quando aquele foi parar lá? Art não tinha olhado para o Livro desde que Trevor o trouxera; se pudesse, estaria se sentindo idiota por isso. Será que trocaram antes de Trevor pegá-lo? Ou no enquanto ele e Von estavam na mente de Raffes, ou no shopping? Von teria notado, não teria?

O Livro não era brincadeira. Justificava todo aquele rolo, a descida da Presença... Justificava até os cadáveres. Será que pensaria assim se suas emoções estivessem funcionando? Se pensasse diferente era um tolo.

Mas, para valer alguma coisa, o Livro precisava ser lido. E Art não tinha ideia de como fazer isso. Como fizera com o outro? Foi tão natural, não foi? Sua memória era embaçada. Que horas eram? Quem sabe fosse mais prudente levá-lo dali e estudá-lo com calma, descansado, sem cadáveres à sua volta. E sem as dúvidas:

O Livro ser de verdade significa que a situação tá fugindo do meu controle?

A raiva tentou escapar de seu confinamento, junto com a tristeza, o desespero, a decepção... Mas, forte também, havia a determinação, a teimosia, o orgulho. Não, não era um bom momento para deixá-las saírem. Colocou mais uma camada de chumbo. Talvez fosse isso: sem emoções não conseguiria compreender o Livro. Uma tese lógica, considerando a natureza subjetiva daquele tipo de obra. Mas liberar as emoções estava fora de questão.

O Bosque se iluminou. Art tirou os olhos do Livro, cautelosamente desviando-os dos corpos, e fitou a luz. As folhas dançaram pelo chão, devagar como numa brisa, ordenadas como numa orquestra. Não houve vento, som, ou cheiro. O bosque se movia como se afetado por algo claramente real, mas além dos sentidos humanos. O brilho se concentrou, tomando forma, e se estabilizou.

Era o que ele estava esperando. Desde o começo, desde Merriam. Era o tipo de coisa que via em filmes, lia em histórias. A empolgação bateu na caixa de chumbo, rachando as paredes, mas ele conseguiu emendá-las.

Olá.

Art via não uma imagem humana. Não era nem uma imagem, na realidade: era uma luminosidade fosca, algo que ele logo desistiu de tentar compreender. Um ser que abdicara de um corpo. Uma entidade só de mente, tão grande que a sua energia passava para o material, na forma daquela luz. Uma luz vinda de lugar algum, pairando como a luz de um projetor de cinema apontado para a névoa, mas sem névoa, nem projetor.

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