Capítulo 9: Confiança (VI)

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O estacionamento do supermercado era uma arena perfeita: amplo, escuro, vazio e terrível. Não havia nenhum carro, só os eventuais postes e os dois que agora se encaravam, andando em círculos. Os outros só observavam da porta, não intervindo por um misto de medo, respeito e honra.

Kik na realidade não andava: flutuava a poucos centímetros do chão, os dedos do pé quase encostando no asfalto bruto. Estava nu, ou pelo menos era o que se podia inferir; seu corpo não era carne e osso. No lugar dos músculos tinha feixes azuis e verdes, vermelhos e roxos, correndo em círculos como cobras disformes e violentas, feixes da sua interpretação de energia pura. O rosto era severo, agressivo e belo, emoldurando as órbitas negras que dos olhos. Ele abria e fechava as mãos.

Jo caminhava devagar, os tênis gastos rangendo no asfalto. Usava jeans velhos, meio rasgados no joelho, uma camisa branca embaixo de uma regata cinza, sem estampa. Os brincos tintilavam a cada passo, uma confusão de anéis e penduricalhos, mínimos dados, pequenas pedras brilhantes, correntes. Os lábios eram negros e confiantes. Os olhos eram frios.

— Quem é esse!? — disse Trevor, soando como a criança barulhenta que não sabe segurar a curiosidade. — Do que ele é feito?

Sei lá, mas é bom o suficiente para nem pestanejar com a falta de fé de Trevor, pensou Von, pedindo silêncio ao amigo. Era inegavelmente poderoso. Ele não sabia direito como estimar isso, mas diria que era mais capaz do que Merriam. Jo, entretanto, parecia confiante.

— Devemos ajudar ela? — perguntou para Gaen, fazendo seu sussurro flutuar pelo vento até os ouvidos do homem de terno. Ele respondeu com um aceno, negando.

As mentes de Kik e Jo trabalhavam rápido, analisando-se, atacando e defendendo. Merriam lhes falara disso, de como eram os duelos. Defender, no campo da própria mente, é mais fácil que atacar. Se algum dos dois fosse muito superior ao outro, logo triunfaria. Se não, eles logo partiriam para um embate mais... Gráfico.

Um raio cruzou o estacionamento. Jo desviou tão rápido que Von achou que ela tinha se teleportado, e o feixe de energia passou por cima dela, colidindo com um dos postes e o vaporizando. O segundo veio mais rápido, e a moça defletiu-o para cima. O quarto, o quinto, o sexto... Começaram a vir rápido demais para se contar. Colidiam com as mãos nuas de Jo e voavam longe, explodindo no asfalto e no céu como fogos de artifício, brilhantes e mortíferos. Alguns voaram na direção da porta do supermercado, e Gaen e Cennen desviaram-os para cima displicentemente. Von fez um dos raios sumir, examinando a energia que o compunha, entendendo exatamente o que Kik fazia. Jo saltou, girando, e redirecionou um deles direto para Kik. Energia atingiu energia, e numa explosão de luz o duelo voltou à posição inicial. Jo nem suava; Kik era incapaz de suar.

Von não conseguia desviar os olhos de Kik. Sim, Jo era impressionante em sua fé e habilidade, mas o outro era energia. Desfazia o próprio corpo como bem desejava. Já havia há muito renunciado todas as pequenas coisas que faziam dele humano, carne, ossos e sangue, e fazia-o hoje tão bem que Von mal conseguia sentir o efeito em andamento. Encarou por tanto tempo que Kik pareceu notá-lo. Olhou para Von e sua raiva derreteu.

A energia do rosto de Kik pareceu parar no lugar, relaxando, os olhos negros perdendo a severidade e a boca despencando.

— Mestre Rocan.

Von piscou e Kik estava aos seus pés, de joelhos.

— Rocan. Eu pensei que nunca mais o veria — ele disse, cabeça baixa.

Von olhou para os lados, meio rindo, prestes a dar de ombros e perguntar quem diabo era Rocan, mas parou quando viu os olhares dos outros. Klen era estátua e estupefação. Trevor estava extasiado demais com o embate de antes para notar alguma coisa. Gaen parecia pela primeira vez ter emoções. Antes de conseguir olhar para Cennen, foi distraído por Jo.

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