Num estalar de dedos, Von saiu de um dos melhores momentos de toda a sua vida e voltou ao estresse absurdo que o dominava há semanas. Alesia caiu no buraco e ele a fechou ali, escondendo-a da melhor maneira que conseguia.
Siman ria na mente dele. Um riso eufórico, cruel, riso maléfico da vingança, riso sem emoção da verdade inexpugnável. A morte está vindo, a voz dele dizia. A morte virá.
— Cala a boca. Se eu sei disso, como que a morte virá quando eu menos esperar? — ele respondeu, e as palavras de Siman se tornaram só o riso de novo.
Von piscou, e não estava mais sozinho.
— Olá — disse o velho do estacionamento. Seu teleporte desta vez foi tão rápido que Von não conseguiu nem o ver se formar. Primeiro as faíscas, depois ele, já falando.
— Opa — disse Von, trêmulo, penteando o cabelo com a mão.
— Você parou o nosso ataque — disse o velho. Sua voz era grossa e viva, diferente do tom lânguido que Von esperava. Era a voz de um jovem, poderosa e segura. — Diga-me... — Ele parou e riu. Von sentiu o corpo todo tenso. — Que indelicadeza. Permita-me começar.
O velho ajeitou a postura, crescendo uns bons dez centímetros, e alisou a barba. A lua surgiu por entre as nuvens, enchendo a face dele de detalhes. Von só conseguiu prestar atenção nos olhos. Lagos escuros, gelo. Não acompanhavam o sorriso. Não pareciam capazes de sorrir.
— Sou Erm. Mestre da Matéria.
Matéria é difícil, Merriam sempre lhes disse. Poucos fazem matéria nesse mundo, Seh lhes disse. Os que fazem e sobreviviam são muito ousados... Ou muito bons.
— Sou Von — ele disse, estufando o peito. Tentou não tremer.
— Von... — Erm deixou a palavra voar, sorvendo-a. — E você sabe fazer matéria.
Erm alisou os lábios. Ergueu uma mão, apontando os dedos ossudos para o céu. Fechou-a num punho, a pele pálida e enrugada surpreendentemente firme, e abriu lentamente. Do vazio entre seus dedos surgia um objeto, crescendo junto com o relaxar da mão. Quando terminou, a forma tinha o tamanho de um crânio. O maior diamante que Von já vira. Procurou algum efeito na luz, qualquer tipo de ilusão, mas não havia. Era real: Erm criou matéria.
— Eu demorei séculos para desenvolver isso — disse o velho, soprando o diamante e desfazendo-o em uma poeira fina, que voou e sumiu na brisa. — Cheguei mais perto da Consequência do que a maioria ousa, mas também não fui como todos os tolos que superestimaram sua benevolência. Isto é grandioso. — Ele umedeceu os lábios. — Alguns de nossos antecessores, os que não conseguiram, diriam que é divino.
Von imaginou a cara séria de Tom, tentando imitá-la.
— Vamos esquecer essa bobagem, Von — disse Erm, dando ênfase no nome. — Venha conosco. Já se passou tempo demais. Eu peço perdão pelo que ocorreu antes, todos pedimos. O seu lugar será retornado. Teremos, de volta, o nosso lugar no mundo.
— Voltar? — Von tentou não franzir o cenho. Do que caralhos ele tá falando? Normalmente teria rido, mas o medo não permitiu. O medo o fez falar a primeira coisa que lhe veio à mente: — O mundo não tem mais lugar para nós.
Andava matutando aquela ideia desde que pensara em fugir. Era algo que Merriam lhes dissera, há anos. A conversa com Alesia a trouxe de volta.
Erm riu.
— O mundo nunca teve lugar para nós. Nada mudou desde os nossos ancestrais. Alguns aprendem, a maioria é consumida pela Consequência, mas sempre existimos. A humanidade tem ficado mais cética, sim, mas ao mesmo tempo nunca fomos tão poderosos. O mundo nunca teve lugar para nós: nós que criamos nosso lugar nele. — Ele inspirou. — Mas você fala como se não soubesse disso. Essas palavras foram suas.
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Princípios do Nada
Mistério / SuspenseE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
