Capítulo 9: Confiança (I)

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O vento pareceu não se cansar dele, vindo em brisas confortáveis, algumas fortes e brincalhonas, outras mais suaves e carinhosas. O cenho franzido se desfez rápido, e Von saboreou aqueles momentos, aproveitando para repousar a mente. Dentro do supermercado encontraria só Art, entre seus esquemas, e Trevor, entre suas perguntas. Suspirou, e o vento pareceu responder a isso, erguendo seu cabelo como uma mão teria feito.

Houve, no auge da adolescência deles (já não eram mais adolescentes? Realmente podiam ser chamados de adultos?), um período onde Trevor mergulhara em velhos livros românticos, os melosos e complexos, tanto a ponto de, em vez de seduzir, entediar as garotas. Numa das primeiras bebedeiras do grupo ele falara sobre o vento no telhado da casa de praia, deixando o álcool tirar sua inibição.

— Este vento é como os braços de uma amante — ele improvisara, olhos fixos no céu. — A amante perfeita, talvez. A que nunca nos deixa, suave, tenra...

Os outros riram naquela vez, até mesmo Tom, e graças a Deus essa época passou rápido. Mas, no pátio do estacionamento do supermercado, Von viu um pouco de verdade nos versos.

— Que saco, virei o Trevor de três anos atrás. — Ele riu baixinho.

A onda cresceu em suas percepções antes que ele pudesse se mover.

É isso: devem ter achado o Livro, tão trazendo todo mundo de volta. Não tem por que resistir.

A onda veio mais lenta que da outra vez, mas igualmente forte. Vinha permeando a realidade, como uma cachoeira reversa invisível, tão poderosa que parecia prestes a erguê-lo do chão e lançá-lo para cima. Mas por mais similar com o que sentira antes... Havia algo diferente. Talvez fosse um dos ensinamentos meio esquecidos de Seh vindo à tona, talvez só uma coincidência, mas... A intuição de Von gritou. Algo estava errado.

A onda desceu com peso, pressionando as barreiras que Von erguera no supermercado, dando a ele um momento para reagir. Ele franziu o cenho, num impulso decidindo resistir para ver o que acontecia. Mas, diferente da primeira vez, a onda não sumiu.

De dentro da onda vieram lanças, explodindo as barreiras em mil fragmentos brilhantes. Von foi ao chão com força, mas num segundo já se pôs de pé, triplicando suas defesas. Não estavam só querendo apagá-lo.

Que porra é essa? Querem me matar?

O ataque não vacilava. Cada segundo havia mais força nos ombros dele, mais peso, espalhando-se pelo supermercado inteiro, pela cidade inteira. Ele não conseguia fazer fora resistir, fraco como era nas coisas da mente.

"Resistir é mais fácil do que atacar, lembrem-se. Se quiserem realmente acertar alguém que consiga se defender, têm que fazer isso num momento de distração, de fragilidade. Quando o oponente está atacando, ou não prevê um ataque..."

Merriam podia estar certo, mas suas palavras não trouxeram conforto a Von. Tinha toneladas nas costas, e aos poucos o ataque, antes direcionado à toda a cidade, pareceu se concentrar nele, caindo como um tsunami em sua pequena mente e suas barreiras de areia. Caiu com um joelho no chão, suas defesas violadas pelas lanças metafóricas, cada vez mais numerosas, fazendo-o suar e sangrar. Esforçou-se a ponto de sentir a Consequência, tão esparsa naquela cidade sem ninguém, soprando em seu cangote.

— É, Von, você não é muito bom nessa coisa de defesa — dissera Seh, em algum dos dias que ele não conseguia sequer lembrar. — Você até pode lutar contra isso, mas, no final, é impossível ser tão bom quanto o Trevor.

Von trincou os dentes, sentindo a saliva se misturar com o sangue e escapar pelos lábios entreabertos.

— Posso te ensinar umas coisas que podem ajudar, mas... Eu não disse a vocês? Depois de todo esse tempo não sabem? — repetira Seh, se divertindo. — Impossível é um conceito muito bobo.

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