Capítulo 12: Profecia (X)

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Art acordou sem ar. Sentiu os dedos na garganta, impiedosos, e mal teve forças para agarrá-los e impedir o aperto de apagá-lo de novo.

Não se lembrava de ter dormido. A última coisa que se lembrava...

A última coisa que se lembrava era de estar imóvel enquanto a vida que conhecia se desfazia. Ele tentara tirar os olhos de Alesia, da percepção horrível que não havia como salvá-la, mas não conseguira. Lá no fundo, nas entranhas lógicas de seu cérebro, uma pequena voz gritava que ele podia agir, tentar a Transcendência mais uma vez, fazer alguma coisa. Mas, entre as centenas de vozes, essa era a mais fraca.

Nada disso importa, dizia o resto dele.

E depois veio o escuro, e ele dormiu. Até aquele momento.

— E então, Art — disse Von, os olhos vermelhos, úmidos, pesados. Erguia-o com uma mão só, tão alto que os pés de Art mal encostavam no chão. — Isso também faz parte do seu plano? O que você queria agora, que eu descobrisse como parar a Consequência pra salvar a Alesia?

Mas ele tinha parado a Consequência, não tinha? Seu corpo não estava mais se desfazendo. Art jogou os olhos para trás de Von, esperançoso, mas não viu nada. Alesia não estava mais lá. Ele procurou pela cidade, sentindo as pessoas de volta em seus corpos, todas dormindo... E não sentiu Alesia.

Então o Von não venceu a Consequência, ele pensou. Que pena.

E, só de pensar nisso, quase vomitou. Von estava certo, então? Alesia acaba de morrer e tudo que eu estou pensando é no que eu faria se o Von tivesse me ensinado a desfazer a Consequência? Seria o cenário perfeito para Von desfazê-la, como foi nos Picos, quando ele criou matéria. Naquela ocasião a confiança de Art fora recompensada, e tudo seguiu nos trilhos que ele havia forjado. Von continuou:

— Realmente, é a sua cara. Primeiro você me faz descobrir como criar matéria pra salvar a sua vida, depois como quebrar a Consequência para salvar Alesia... Bom, novidade pra você, não funcionou! Eu não consigo fazer isso! — A voz dele preencheu a avenida, para depois se tornar um sussurro. — Eu não consegui fazer isso...

Mas Art parou a Consequência quando usou a Transcendência, não parou? E, falando nisso, Erm usara uma versão da Transcendência, mas continuara consciente? Fizeram coisas diferentes? Ele ainda não tinha ideia de como parar a Consequência, como Erm pareceu não ter, minutos antes. Teria sido realmente genial se Von...

Alesia acaba de morrer e tudo que eu estou pensando é no que eu faria se o Von tivesse me ensinado a desfazer a Consequência.

— Isso estraga seu plano ou era só um detalhe, hein Art? Quando eles me falaram... Quando a Alesia me falou, eu não quis acreditar que isso era um esquema seu. O Livro, desde o começo... — Os dentes dele tremiam a cada pausa. — Como eu fui otário! É óbvio que era coisa sua, por que mais você não teria olhado o Livro nem uma vez? — Ele levou uma mão, pronto para pentear o cabelo, mas ela caiu no meio do caminho. — Eu achei que te conhecia. Agora olha o que a merda do seu plano causou? Você...

Eu matei a Lena. Eu matei a Alesia.

Não, não. Rocan matou a Lena, Erm matou a Alesia. A culpa não era dele. A culpa não era dele. A culpa não era dele. Art queria ter forças para refazer a caixa de chumbo na mente, mas não tinha. O que tinha era uma bola fria no estômago, que o deixava com vontade de fazer um buraco no chão e se enterrar até o fim do universo.

Não importa. Nada importa. Quando eu terminar o meu plano nada do que aconteceu importará.

— Pelo menos FINGE que tá triste com isso! — berrou Von.

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