A luz nos túneis era fria e seca, diferente da umidade suada do grupo de homens que se aglomerava num círculo, dois ao centro. Ali, no coração subterrâneo da universidade, os punhos cantavam e os olhos eram prosa. Tom sabia disso.
Um dos homens ao centro caiu no chão, e o outro, com o punho sangrento, não comemorou. Tom, sem camisa, pingando de suor. Parecia um touro zen, a expressão calma como os dois conheciam, a parede inexpressiva, mesmo no meio da luta. Logo outro saiu do círculo e postou-se à frente dele, também sem camisa, também suado, mas o rosto uma mistura de concentração e melancolia. Esses não eram os caras que andavam com um cigarro na boca e um canivete no bolso porque era maneiro. Esses caras eram de verdade.
Tom não hesitou. Ficou em posição imediatamente, e o homem caminhou ao seu encontro. Num momento o homem preparava-se para lançar um soco, e no instante seguinte estava no chão.
— Puta que pariu — disse Art, sem abrir os lábios. Von não respondeu.
Os dois tinham seguido o rastro de Tom pela universidade, e não estavam exatamente felizes com o que encontraram. Que merda era aquela? Isso que Tom fazia quando desaparecia? Talvez quem quer que tenha teorizado que ele era um psicopata (Trevor? Seh?) estivesse certo. Depois de descobrir a caverna no jardim da casa dos pais de Seh eles acharam que aquela noite não podia ficar mais esquisita. Estiveram errados.
Tom era feroz. Derrubava um após outro, a expressão nunca saindo do sério contido que Art e Von conheciam tão bem. Era bruto em seus golpes e gracioso em seus passos, flutuando pelo concreto cru e fixando-se nele um segundo antes de lançar seus punhos de pedra. Os dois estavam próximos do círculo, mas ninguém olhava para eles.
Art e Von só observavam, sem saber como interromper o ritual, ou sabe-se lá como chamar aquilo. Reconheceram Tom logo no começo, sem entender o que ele estava fazendo ali. Dois segundos depois dele entrar no meio do círculo eles entenderam. Continuaram sem palavra, assistindo de camarote o mais real filme de ação que já tinham visto. Outro homem entrava no círculo.
Von não piscava, mas não era suficiente para ver os golpes. Tom alternava guardas simples de boxe com posturas complexas, coisas saídas de gravuras orientais. O terceiro homem voou, e por um longo período nenhum outro entrou no círculo. Von sacudiu a cabeça, voltando ao momento. Olhou para o lado e Art ainda estava mesmerizado, a boca semiaberta e os olhos mortos. Aquilo era perda de tempo.
— Ok, acabou a minha paciência — disse Von, esfregando as mãos vigorosamente.
O som claro de um apito preencheu a abertura nos túneis, seguido de gritos, diversas vozes soltando ordens policiais. O círculo desfez-se num estalo, dúzias de homens correndo numa reação quase militar. O único que permaneceu foi Tom, expressão confusa no rosto. Respirava com força, massageando os braços com os punhos sangrentos e olhando à volta. Levou uma mão ao bolso, e depois ao ouvido.
— Revele-se — disse, olhando para seu entorno, um punho colado no ouvido. — Os dois.
— Tom — disse Von, caminhando na luz. Art inicialmente pareceu em pânico, tentando pará-lo, mas depois uniu-se ao colega.
— ...Von? Art? — Tom parecia mais calmo, mas igualmente sério. — O que fazem aqui? Como descobriram este lugar?
— Nós...
— Mas que caralho! — interrompeu Art. — Que porra foi essa? "O Grande Dragão Oriental do Esgoto"? Puta merda!
Von virou-se para ele, surpreso. Não via essa face de Art há tanto, a surpresa com coisas moles da vida... Será que ainda restava muito disso nele? Do que os fez amigos, no início... Não, não foi isso que os fez amigos: foi Von achar que podia confiar nele.
Tom sentou-se no chão, ainda massageando os braços, os olhos nos amigos. Fez uma das coisas mais surpreendentes que podia fazer. Riu.
— Dragão Oriental do Esgoto é uma boa. Seh teria inveja de você. — Ele fechou os olhos, inspirando profundamente, normalizando a respiração. — Muitas coisas interessantes acontecem no Campus. Este grupo é uma delas, uma que estou tentando terminar. — Ele levantou-se rápido, tateando no escuro até encontrar uma mochila, e enrolando os braços com a atadura que tirou dela. Ele vestiu uma camiseta, hesitando ao ver o casaco. Estava frio fora dos túneis, mas ele ainda estava encharcado de suor. Os dois ainda o encaravam, incrédulos.
— O que vocês fazem aqui?
— A gente tava procurando o Seh — disse Von, antes que Art pudesse falar. — Nem sinal dele, nem no apartamento nem na casa dos pais. Pensamos em procurar o Henderson, mas não sabíamos onde, então viemos pedir a sua ajuda.
— Não o vi o dia todo.
— Você sabe onde ele mora?
Tom piscou forte uma vez, tão forte que um pequeno espasmo percorreu todo o seu corpo. Ele perdeu um pouco a dureza do olhar, e pela primeira vez os dois viram-no não só surpreso, mas abobado, tão longe da realidade que a face derretia. Era como se alguém lhe perguntasse por que passara o dia todo sem calças, e só então ele olhasse para baixo. Instigante demais para ser só coincidência, principalmente depois do que viram na casa de Seh. Von percebeu o exato momento em que Art saiu do seu estado impressionável e começou a trabalhar. Não era muito amigável fazê-lo, mas precisava entender se havia algo a mais naquela reação.
— Eu não... — disse Tom, recuperando a compostura. — ...Não sei. Nunca... perguntei?
Os três permaneceram em silêncio um momento, cada um envolto na própria confusão.
— Vocês acharam algo estranho na casa do Seh?
— Bom... Nenhuma grande dica de onde ele tá, mas umas coisas meio perturbadoras...
Von sabia bem o contrato não dito entre os quatro e Tom. Desde o início ele teve a impressão que Tom sabia o que estava acontecendo, pelo menos em parte, e nunca iria perguntar. E eles, em compensação, não perguntariam o que ele estava fazendo ali batendo nas pessoas.
— Você e o Henderson são mais ou menos próximos não?
— Mais ou menos, talvez.
— Você é mais próximo dele do que qualquer um de nós fora o Seh — Art se interpôs. — Se você não sabe onde ele pode estar...
— É sobre o Livro, não é? Vocês acham que o sumiço dos dois tem a ver com isso.
— É.
Von quase falara sobre Seh indo falar com ele no sábado meia dúzia de vezes naquela noite, principalmente enquanto estava no ônibus com Art, mas a desconfiança falou mais alto. Se Art não estivesse ali provavelmente comentaria o evento com Tom.
— Entendo... Bem, eu... — Tom tinha confusão na voz, evento raro, que fez os outros dois se aproximarem para ouvir. — Eu não sei o que fazer a respeito dele. Não sei se serei de muita utilidade.
Eles não souberam muito bem como reagir.
Von sinceramente não considerava que qualquer um fora ele, Art, Lena e quem sabe Alesia seria útil resolver o problema do Livro. Agora achava que Seh e Henderson seriam de grande ajuda, mas naquele momento já não contava mais com a presença deles. Tom poderia ajudar caso precisassem levantar algum peso ou socar alguém, e talvez seu conhecimento de lugares estranhos como aquele fosse útil, mas ... Ele, nenhum dos outros, era capaz de compreender o problema.
— ...Certo — disse Von, uma sobrancelha erguida. — Amanhã conversamos a respeito e decidimos o que fazer. Não esquenta muito.
Os três caminharam de volta pelos túneis, seguindo o caminho que Tom ditava, até saírem por um duto que dava num dos córregos que cortavam a universidade. Despediram-se de Tom brevemente, e logo estavam só Von e Art novamente, caminhando pela noite. Quando chegaram a uma encruzilhada, cada um seguiu para o seu lado, sem dizer nada.
-------------
Obrigado pela leitura! Fique ligado, novas cenas serão publicadas todas as segundas, quartas e sextas-feiras. E se você ficou impaciente e quer ler mais, dá uma olhada aqui: http://bit.ly/principiosdonada
VOCÊ ESTÁ LENDO
Princípios do Nada
Mistero / ThrillerE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
