Von caminhou entre as árvores com muita calma, segurando a respiração. Não pensara nas consequências do que fizera na lanchonete: com tanta gente, aquilo podia ter acabado mal. Muito mal. Mas estava inteiro, apesar da pontada de dor nas costelas.
Refletindo sobre feito, sentiu o peito inflar. Estava cercado de pessoas, e sua fé foi maior que todas juntas. Não sentiu resistência alguma: quando parou para pensar, já estava no lago. Valeu a pena se arriscar daquela forma? Inspirou, esfregando as mãos da forma mais silenciosa que conseguia.
Havia mais alguém ali.
Ele tomou o cuidado de aparecer longe, distante o suficiente da casa para não dar de cara com quem quer que fosse. As nuvens ainda estavam carregadas, mesmo com a chuva da véspera, mas por um momento deram trégua, e deixaram a luz da lua inundar a floresta que envolvia aquela margem do lago. Von viu o clarão onde ele e Art duelaram (podia chamar aquilo de duelo?), no começo e no fim. Viu a árvore que ele despedaçou ainda caída, e... Um homem. Totalmente estático, a luz refletindo em sua careca, cabeça inclinada para baixo. O que estava olhando?
Von sentiu o véu da ilusão no chão, coisa feita às pressas, mas que durava até aquele dia. Reconheceu o método imediatamente. Muito parecido com o que ele mesmo faria, mas mais bem feito. Algo na ilusão gritava "Art".
Fez os olhos penetrantes, e entendeu o que o careca observava.
No meio da grama, com mais de cinco metros de raio, havia uma poça de sangue. Von deixou o ar escapar.
— ...Merriam? — disse o careca, virando-se.
As nuvens voltaram a cobrir a lua, e a poça de sangue tornou-se indistinguível do resto da escuridão. Von não se moveu. Sentiu a mente do homem, um ponto de atividade no escuro. E agora?
— Merriam? — repetiu o careca, numa voz rouca.
A lembrança das suas férias retornou com força total. O cheiro: era aquele cheiro, ou aquilo que talvez não fosse um cheiro mas o que seu cérebro, sem melhor definição, insistia em classificar daquela forma. Quando você menos esperar, dizia a voz de Siman, que nunca desaparecera por completo. Circulava a mente de Von, penetrando e destruindo sua calma, surgindo nos últimos momentos antes do sono. Com a aparição do Livro ela cantara na mente do jovem por horas. Ainda cantava. Aquele homem à frente dele era um dos adeptos da Capital: um dos companheiros de Merriam e Siman.
— O que você está fazendo? Isso é propriedade privada — respondeu Von, xingando-se pela própria idiotice. Quem diz isso?
O careca suspirou audivelmente. Von franziu o cenho, e a visão ficou turva. A cabeça pesou, como se tivesse aspirado clorofórmio. Caiu de joelhos, uma mão ao chão... Mas levantou a cabeça. Conhecia aquilo bem: era parecido com o que Art teria feito. Um segundo depois estava de pé.
Quando você menos esperar...
— ...Merriam? — disse o careca uma terceira vez, incrédulo.
— Não.
Nada se moveu. Von levantou as melhores barreiras que tinha à sua volta, mas sabia que era uma medida fútil. Se o homem fosse minimamente tão bom quanto Art, passaria por elas fácil. Precisava prever seus movimentos, antecipar-se. Fazer algo que o homem não esperava. Sentiu a mente dele trabalhando, rápida, curiosa, precisa.
As palavras de Merriam corriam em sua mente. As imagens de seus embates passados, com Art, com Siman, passavam pela memória, rápidas demais para serem observadas. Sentiu o suor escorrendo pela têmpora. Entre o medo e a concentração percebeu que a situação parecia um filme de faroeste, os dois se encarando, as mãos abertas do lado do corpo. Suas armas, entretanto, não estavam na cintura: estavam mais acima.
— Você é bom, Von — dissera Merriam, no dia que foi conversar sozinho com ele. — Não há muitos que conseguem fazer isso. Hoje em dia a maioria trabalha com coisas mais... Fáceis, com menos riscos de Consequência, coisas "menos impossíveis". O que você quer fazer é uma arte esquecida, ignorada, pelo perigo e pela falta de lugar dela. Não existe mais lugar para isso no mundo, e quem praticava desapareceu. Ninguém sabe lidar muito bem com isso ultimamente.
Instaurou-se um silêncio sepulcral no lago. Não havia vento, não havia luz. A casa do lago observava, em silêncio, dois homens completamente estáticos. A mão de Von tremia.
Havia uma pedra de barro a alguns passos do careca. Era só terra, mole. Von tirou parte da concentração do homem: era rocha da mais dura. O careca sentiu Von baixando a guarda, e, mais uma vez, o jovem sentiu a cabeça pesar. Desta vez, entretanto, não era brincadeira. Sentiu-se como se estivesse ficando mais bêbado do que jamais estivera, do que era possível, cada milésimo de segundo mais. Perdeu o equilíbrio, mas não a concentração.
Fez da pedra ferro e da viga da casa ímã, o mais poderoso que conseguia conceber. A pedra disparou pelo ar, rápida demais para ser parada por mãos, imprevisível demais para ser bloqueada por mentes. O careca tentou fazer algo a respeito, mas não entendeu o que estava acontecendo a tempo.
A pedra atingiu-o bem no meio da testa, e ele caiu de costas no chão, a careca a centímetros da poça de sangue. Von cambaleou na direção dele, mas também caiu.
Nos Picos refez sua mente uma centena de vezes, toda a vez que simularam o embate, mas o que quer que o careca tivesse feito era diferente. Deitado com a cara no chão, os lábios de Von se moveram. Só confiava em uma pessoa para socorrê-lo, e, num último esforço, enviou um pedido de ajuda.
A mente de Von continuou ativa por alguns segundos, entretanto. Olhava para o lado, para a poça de sangue. Não sabia o que aquilo podia ser, mas tinha uma ideia boa. Lembrou-se de quando voltaram dos Picos, de quando ele apagou.
"Não se brinca com a Consequência", dissera Merriam.
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E este foi o capítulo 3! Espero que você tenha curtido a história até aqui, e que tenha ficado satisfeito com toda a revelação e desenvolvimento do que eram, afinal, os Picos. Sexta-feira teremos mais um enxerto antes do capítulo 4, chamado "Consequência". Ou você acha que, depois de voltar dos Picos, o Von só desmaiou?
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Princípios do Nada
Gizem / GerilimE se a vida pudesse ser tão interessante quanto você achava que seria quando criança? E se todas as histórias que você imaginava, as aventuras, os poderes, a grandeza que você esperava para si... E se tudo isso fosse de novo verdade, tão real que ch...
