Capítulo 2: Amigos (IV)

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A chuva a desanimou muito, mas Alesia continuou. Nunca gostou dos jogos que Art e Von faziam com os professores, mas tinha que admitir que sem eles as aulas ficavam muito menos interessantes. Lena fez bem de não ter aparecido. Alie tinha uma boa ideia de onde encontrá-la.

Quando percebeu que nenhum dos dois ia sacanear a aula, a garota foi preenchida por uma sensação agridoce. Era isso que queria, não? Os dois sem abusar do que conseguiam fazer. Mas ao mesmo tempo aquilo era prova de que o que quer que tenha acontecido entre eles foi sério. A aula seria uma ótima oportunidade para um fazer o outro rir, e iniciar o incompreensivelmente simples processo de perdão entre homens.

A água caía no bosque cada vez mais forte, as copas esparsas deixando-a passar, e o vento frio gelava a garota até a alma. Na metade do caminho ela já tremia, sentindo-se como se estivesse calçando esponjas.

Poderia se livrar daquilo. Não seria fácil, mas poderia: demoraria um minutinho, e... Não. Queria que Lena, como Art, achasse que ela tinha parado.

Logo encontrou a parede. A estrutura erguia-se quase invisível à distância, o limo esverdeado deixando as pedras difíceis de distinguir das árvores. Era uma mínima muralha circular, sem teto, só uma abertura como entrada. Pouquíssimas pessoas conheciam aquele lugar. Encontrara-o com Lena em uma festa do campus, quando as duas perderam-se no bosque. Era solitário e escondido: perfeito para o que elas faziam ali. Ou costumavam fazer; Alie não entrava no círculo de pedras há quase seis meses. Atravessou a abertura e a chuva cessou.

Alesia deu dois passos para dentro e Lena virou-se num estalo, olhos claros como os de uma serpente. Alesia ergueu as mãos, recuando, alarmada. Sentiu Lena preparando um bote; se demorasse demais para reconhecê-la, iria no mínimo apagá-la. Era mesmo Lena, tão agressiva?

— Alesia! — A garota arregalou os olhos, a expressão agressiva derretendo num olhar preocupado. — Você me assustou!

— Desculpa! Se não fosse a chuva você teria me ouvido entrando...

O interior do círculo era como Alesia se lembrava. A terra batida do chão, visível nos poucos pontos não totalmente cobertos de folhas velhas, as paredes irregulares feitas de pedras arredondadas... O espaço era muito maior do que parecia por fora, com talvez dez metros de diâmetro, e várias pedras das paredes projetavam-se para dentro. Parte dela esperava encontrar o Livro ali, mas, se estava dentro da muralha, estava ou enterrado ou invisível.

— Você está encharcada! — Lena deu um passo hesitante à frente, os braços meio erguidos como se não soubesse se era apropriado abraçar a amiga.

— É, a chuva veio de surpresa... — disse Alesia, espremendo o cabelo.

Usou o momento de hesitação de Lena para analisá-la. Usava uma regata preta e uma calça ainda mais escura, como era seu costume. No entorno dos olhos claros o lápis de olho era mais forte do que se lembrava, e o cabelo também. Tudo nela parecia mais escuro, menos sua expressão. Desde pouco antes dos quatro se tornaram os quatro a garota tinha adotado aquele vestuário, intensificando-o cada dia mais. A única vez que se portou de uma maneira que combinava com o visual, entretanto, foi há poucos segundos, quando quase atacou Alesia.

— Quer... — começou Lena, mas hesitou, como se esperasse que Alesia a interrompesse e fizesse alguma coisa. — Quer que eu te seque?

— Não... — Alie franziu o cenho. — Espera, hã?

Teria reagido tão naturalmente caso não andasse praticando escondida? Teria hesitado daquela forma?

— Você sabe. Que nem a gente praticou no lago — disse Lena. Alie procurou por qualquer sinal de suspeita naquele sorriso tímido, e nada viu.

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