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— Corno! Cabeçudo! Chifrudo! Arrombado!— falei alto enquanto assistia o jogo.— Fodido dos infernos!

O jogador do São Paulo, Calleri, veio com um carrinho brutal em cima do Piquerez. Era nítido que ele não tinha ido na bola, que já estava longe, e acertou o uruguaio em cheio.

Ih rapaz, esse carrinho do Calleri foi forte demais, né? — comentou o narrador enquanto o replay passava na tela. — A bola já estava indo para o Ríos quando o tricolor chegou.

— Filha da puta! — xinguei com raiva. — Ele é burro ou cego? A bola nem estava mais no pé do Joaquín!

Bati na mesa com fúria, sem me importar com nada. Eu estava sozinha naquele camarote. O camarote que eu tinha conseguido depois de ter dito para minha mãe que ia ao jogo mas que não ficaria na arquibancada com a torcida do Palmeiras. Não aguentava mais ver a mancha verde por perto.

— Está tudo bem aqui? — perguntou minha mãe, entrando no camarote após ouvir o estrondo que fiz ao bater na mesa.

— Tá tudo ótimo. — respondi com ironia, ainda remoendo a raiva do lance. — Tirando o fato de que aquele imbecil do Calleri tá jogando sujo, tá tudo maravilhoso.

— O que aconteceu? Não consegui ver o jogo enquanto vinha pra cá. — disse ela, pegando uma garrafa de água da geladeira.

— Aquele idiota deu um carrinho desnecessário no Joaquín! — expliquei.

Ela me encarou com um sorriso irônico.

— Não tem graça, mãe! — protestei, indignada com a sua reação. — Onde você vê graça nisso?

Ela balançou a cabeça, negando com um sorriso ainda maior.

— A graça é você, completamente fora de si por causa de um jogo de futebol. — disse ela. — Nunca te imaginei assim.

— É claro que eu tô fora de mim! Ele tá literalmente batendo no meu homem! — rebati, ainda furiosa. — E nem sequer foi expulso! Poderia ter machucado ele seriamente! Aquele juiz é um covarde! — apontei para o gramado, gesticulando com raiva.— Um bunda mole!

— Seu homem? — ela arqueou as sobrancelhas, surpresa com a minha posse. — Você realmente está apaixonada por ele, né? — riu ela. — Imagino que quando você for mãe, vai ser uma verdadeira leoa protegendo seus filhotes.

— O que isso tem haver com o jogo?

— Olha como você está protegendo defendendo o Piquerez. — disse ela com ironia, sentando-se na cadeira. — Se ele não se machucou, é porque o carrinho, mesmo mal executado, não pegou nele em cheio.

— Tanto faz. — respondi ríspida. — Se ele tentar bater no Joaquín de novo, eu desço lá no gramado e chuto a bunda dele com tanta força que ele vai voltar pro Morumbi quicando!

Minha mãe soltou uma gargalhada contagiante, e logo eu também estava rindo. No fundo, eu sabia que meu nervosismo era ridículo. Mas ver o Calleri maltratando o Joaquín e saindo impune me deixava furiosa, com raiva incontrolável. Eu só queria torcer o pescoço dele feito uma galinha.

— Por que você não vai se juntar à Mancha Verde lá fora? — ela sugeriu, mas neguei com a cabeça, fazendo uma careta. — Parece que você está cuspindo fogo, igual a eles.

— Nem pensar! — respondi. — Se o Palmeiras perder, eu nem ligo. Mas se machucarem o meu homem, aí a história é outra.

— Você sabe que lesões são comuns nesse esporte. — disse ela calmamente.

— Eu sei. — respondi, me sentando mais ereta. — Mas uma coisa é ele torcer o tornozelo ou se machucar em um lance normal, outra coisa é um babaca daquele aparecer e dar uma voadora nele!

— Quer água? Você precisa se acalmar.

— Não, tô bem. — respondi, cruzando os braços. — Só quero que o jogo acabe logo. Quero meu namorado inteiro.

Mas, enquanto observava o Piquerez em campo, driblando e chutando com maestria, uma sensação mista de admiração, orgulho.

— Ou quem sabe um calmante? — disse ela, me provocando com um sorriso malicioso. — Não vou negar, até que estou gostando de ver essa paixão que ele desperta em você. Você está usando a camisa do time, com o nome dele nas costas... É óbvio. E está agindo como se fosse uma torcedora fanática do Palmeiras.

Eu estava completamente alheia às provocações da minha mãe. Meus olhos se dividiam entre o gramado lá embaixo e a tela da TV à minha frente, acompanhando cada lance com fervor. O jogo estava pegando fogo, e a tensão só aumentava a cada minuto.

De repente, Calleri e Piquerez se chocaram novamente. O jogador do São Paulo tentou roubar a bola do uruguaio, mas não conseguiu e acabou empurrando com força. Joaquín caiu no chão, sem se mexer, enquanto o juiz corria para o local e marcava falta.

Um sorriso irônico surgiu nos lábios da minha mãe, enquanto eu observava a cena com apreensão.

— Por que ele não levanta? Mãe? Por que o Joaquín não se levanta?! — perguntei, meu coração batendo descompassado no peito.

— Ele só está aproveitando o tempo parado. Ele sabe que foi falta, então está deitado no chão esperando ela ser registrada. — respondeu ela com tranquilidade, como se estivesse descrevendo a cena mais normal do mundo.

— Eu não aguento mais isso! — exclamei, me jogando no sofá com frustração. — Isso é ridículo!

— Lembre-se de não vir ver um jogo quando estiver grávida. — comentou ela, e eu ergui a cabeça para olhá-la com confusão.

— Como assim?

— Quando você estiver grávida, não vai poder se exaltar assim. — explicou ela com um sorriso calmo. — Essas emoções fortes podem fazer mal ao bebê.

Suas palavras me fizeram cair em um silêncio reflexivo. Eu realmente estava me comportando de forma exagerada? Era só um jogo de futebol, afinal. Mas, no fundo, eu sabia que não era apenas isso. Era a preocupação com o Joaquín, o medo de que ele estivesse machucado, a raiva por ver como ele era tratado com desrespeito pelos jogadores adversários.

— E quem está falando de gravidez aqui? Eu não estou grávida e não pretendo ficar pelos próximos anos. — minha voz saiu firme, enquanto encarava o teto em busca de alguma resposta para aquela situação complicada. — Eu e Joaquín somos novos demais e, outra coisa, não queremos isso agora.

— Entendo, mas por acaso está tomando as medidas necessárias? — minha mãe insistia, sua voz carregada de preocupação.

— Você não vai querer falar da minha vida sexual aqui, vai? — suspirei, tentando evitar o assunto delicado. — Não vou falar disso.

— Ele está dormindo no apartamento onde você está, provavelmente estão transando quase todas as noites ou todas. Se você não estiver tomando nenhuma precaução anticoncepcional, uma hora a surpresa vem.

— Já disse que não quero falar disso. Estamos em um estádio, no meio de um jogo. Pelo amor de Deus.

— É a única chance que estou tendo de falar com você depois de me ignorar por dias e me expulsar do apartamento. E eu só estou preocupada com você. Sei que tem vários objetivos de vida e que não alcançou nem metade, um bebê agora iria te atrasar em pelo menos seis anos. — sua voz era sincera, carregada de aflição. — E você pode estar apaixonadíssima por Joaquín, mas já se perguntou se ele também vai querer atrasar a vida dele por seis anos?

— Chega. Eu não estou grávida, não quero estar e nem pretendo. Agora pode me deixar relaxar um pouco aqui? Porque se eu continuar vendo esse jogo, eu vou matar alguém.

— Deus tenha piedade dele quando você entrar na TPM. — ela disse enquanto se levantava e saía.

As palavras da minha mãe ecoavam na minha mente, deixando um incômodo desconfortável. Eu precisava organizar minha vida sexual, não queria correr o risco de ter um bebê.

Só a ideia de ter um me deixava apreensiva e me fazia questionar minha capacidade de ser mãe. Nada contra bebês, mas sim contra minha própria capacidade.

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora