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Eu não sei onde estava com a cabeça quando deixei aquilo acontecer. Tudo em mim gritava que era um erro, uma falha monumental, mas mesmo assim eu ignorei. Era como se algo me puxasse, uma força invisível que me dominou, me cegando para as consequências que viriam. Eu sabia, desde o início, que aquilo me custaria mais do que eu estava disposta a pagar.

Minha volta para São Paulo, dois dias depois, foi sufocante. Parecia que o ar da cidade, já naturalmente pesado, se tornava mais denso a cada respiração, esmagando meu peito. Havia um peso horrível nos meus ombros, uma culpa que parecia material, arranhando a pele, esmagando a alma. Eu não contei para ninguém o que tinha acontecido entre mim e o Richard naquele festival. Era algo que eu guardava como um segredo tóxico, que queimava por dentro. Ninguém sabia que passamos cada oportunidade naquele lugar imenso trocando olhares e toques, que nos perdemos um no outro. Ninguém sabia que ele terminou a noite no meu quarto de hotel.

Lucas desconfiou. Ele sempre foi perspicaz, talvez até demais para o meu gosto. O olhar dele naquela segunda-feira dizia tudo, mas eu mantive minha boca fechada, lacrada, como se abrir fosse provocar uma avalanche que eu não estava preparada para enfrentar. Ele perguntou, de maneira casual, mas o tom de voz carregava uma pontada de ciúmes, de insegurança, que eu conhecia bem. Eu menti. Ou melhor, omiti, o que, no final, parecia até pior.

Acordei naquela manhã com o coração batendo descompassado. Richard ainda estava ali, ao meu lado, e eu só conseguia pensar em uma coisa: que aquilo tinha sido um erro. Pedi para ele ir embora, tentando parecer firme, mas minha voz tremia. Ele não queria ir, é claro. Ele queria prolongar o momento, talvez até fingir que éramos algo que não éramos. Mas eu praticamente o expulsei, e ele entendeu. Ele entendeu que eu estava em frangalhos, consumida pela ressaca moral que me engolia inteira.

E era isso. Eu realmente estava destruída por dentro. Não apenas pela culpa do que tinha feito, mas pelo que aquilo significava. O peso do que poderia vir a acontecer. Sabia que aquilo poderia ser o ponto final, definitivo e cruel, para a minha história com Joaquín. Uma história que já era frágil, cheia de rachaduras que tentávamos ignorar.

Eu não transei com o Richard, e sei que muitos podem achar isso um detalhe insignificante. Não é. Não para mim. Nós apenas dividimos o mesmo quarto, a mesma cama, o mesmo silêncio pesado que só existe entre duas pessoas que sabem que estão atravessando uma linha que não deveriam. E, sinceramente, aos olhos de qualquer um que já amou de verdade, isso é muito pior.

O pior é o que não foi dito, o que ficou implícito. A conexão que compartilhamos, mesmo que momentânea, era algo que eu nunca deveria ter permitido. Se Joaquín soubesse disso – se algum dia essa verdade o alcançasse –, tenho certeza de que ele preferiria mil vezes que eu tivesse cedido ao desejo carnal e me afastado em seguida. Mas não foi isso. Eu fiquei, eu permiti, eu participei. Conversamos sob o mesmo teto, compartilhamos o mesmo espaço íntimo, como um casal faz ao final de um dia exaustivo.

Como eu e ele costumávamos fazer.

E é isso que mais me corrói. Porque sei que Joaquín nunca faria isso comigo. Nunca. Ele me amava com uma lealdade quase inumana, e se, por um acaso cruel do destino, ele tivesse feito algo assim, teria me destruído. Eu sei disso porque é exatamente assim que eu me sinto: destruída. Não pelo que aconteceu, mas pelo reflexo do que isso significa.

Eu sei que ele talvez nunca me perdoe. Porque nem eu me perdoo. De todas as escolhas possíveis, de todas as alternativas que eu poderia ter tomado, fui direto na que mais o machucaria. Eu sabia disso, e ainda assim, deixei acontecer.

Me sinto imunda. Não consigo olhar para eles, para ninguém, sem sentir o peso da hipocrisia esmagando meu peito. Não consigo sequer dizer que amo alguém sem me sentir uma fraude. Porque quem ama faria algo assim? Alguém que ama de verdade teria coragem de destruir o coração de quem mais importa?

Amor em Jogo - PiquerezHistórias para pegar e não largar. Descubra agora